segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Dentro dos meus braços...

   Eu sempre gostei muito de abraços. Eu detesto esse protocolo de que em um lugar se deve cumprimentar com um beijinho, com dois, com três, ou só com um aperto de mão etc. 

    Eu gosto é de abraço! Apertado, para sentir o coração. E não acho desrespeitoso, a não ser que a pessoa pegue em locais que não deveria, né?

    Brincadeiras à parte, eu, que já gostava muito do calor humano, estou sentindo tanta falta das pessoas... E não estou dizendo que estou com saudade de aglomerar... Essa palavrinha que ficou tão em uso no momento. 

    Estou dizendo que eu tenho a sensação de que nos tornamos tóxicos uns aos outros. Já pensaram nisso? Quem me conhece muito bem sabe que eu não gosto de sair de casa, mas que gosto muito de receber pessoas na Casinha. Só que agora a gente fica cheio de medos, não é? 

    Estou sentindo falta de ver as pessoas por inteiro. De, além dos olhos, ver os lábios falarem, sorrirem. De ver os músculos da face trabalharem para fazer expressões. Sim, os olhos são as janelas da alma, mas eu queria tanto ser livre novamente para observar as pessoas por inteiro.

    Gosto do abraço sincero, apertado, aconchegado, do sorriso verdadeiro, das risadas boas de pertinho. De poder dizer o quanto gosto de alguém dessa forma. De sentir o coração, a respiração, o calor do corpo. Porque, sim, nosso cérebro registra tudo isso em poucos segundos. E aí eu sinto se meu amigo está bem, se está aborrecido com algo, se está feliz, se está alegre. A gente sente tudo em poucos segundos de um abraço.

   Como eu acho bom! A gente não tem podido sequer abraçar nossos pais, nossos irmãos... Quando precisamos sair e chegamos em casa, precisamos antes tirar os sapatos, lavar as mãos. Ou até, quando trazemos algo para casa, antes de tudo, levar isso para onde tem de levar e esterilizar e depois lavar as mãos e aí a gente consegue cumprimentar quem está em casa. Aquele abraço de rompante, quando chegamos em casa acabou. Que triste isso!

    Ai que saudade!

    Quando tudo isso acabar, eu quero fazer igual a música de Tom e Vinícius: "dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços apertado assim, calado assim..." Porque eu quero muito sentir novamente as pessoas. De ver como são por inteiro, sem máscaras, sem luvas, sem milhares de proteções. 

    Quero um aperto de mão sincero, quero um sorriso aberto, com direito a muitos dentes, olhinhos apertados, bochechas subindo, ruguinhas no nariz e ao redor dos olhos. Ah, gente! Como precisamos valorizar essas coisas, né?

    Até eu que sou um pouquinho reservada nesse sentido de estar entre muita gente - não gosto muito, pois me sinto desconfortável - o que eu quero é um abraço de quem eu nunca mais pude abraçar. Dos que eu considero em minha convivência, daqueles que realmente me fazem bem e a quem eu acredito que faço bem também.

    Abraços, abraços, abraços e muitos abraços. Não vejo a hora de essa pandemia passar e agente não ser mais tóxico, de a gente não mais ser perigoso, de a gente poder sorrir e falar de pertinho, respirar normalmente o mesmo ar que o outro respira.

    Seja lá a piadinha que você estiver pensando aí nessa sua cabecinha, eu lhe digo: Ah! Que beleza você ter essa cabecinha bem humorada, e eu queria muito poder rir junto, fazer piada junto, falar um monte de besteira junto. Sem máscara e com abraço, de preferência.

    Tá combinado então! Dia desses, nos abraçaremos e sorriremos com sinceridade. E, quem sabe, teremos momentos muito legais de rir de a bochecha e a barriga doer e até a nossa alma sarar dessa doença terrível da distância. 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Tempus Fugit

Tempos atrás eu assisti ao meu primeiro dorama. Oi? Não sabe o que é? Pois, vou lhe explicar: São assim chamados os dramas orientais, porque eles, em tese, não conseguem falar o fonema formado pelo encontro consonantal "DR". Então, aqui no Brasil, os fãs - predominantemente mulheres - começaram a chamar essas novelas ou, no modo contemporâneo de dizer, séries de doramas e eu me apaixonei! 
Gente, sem mentira, os orientais mandam muito bem nas histórias!
Seja o dorama contemporâneo, histórico ou histórico-fantástico, ele tem um charme só dele!
Bom, o nome do dorama é Oh, My Venus! Lindinho demais e recomendo. É a história de uma moça que era linda, magra, animada e super cobiçada por todos os rapazes. Um deles, um atleta de ponta da natação coreana, apaixona-se por ela e, enfim, consegue conquistá-la. Chamou a minha atenção, algo que ele lhe disse: "você é o meu primeiro amor e vai ser para sempre." 
Na história, muitos anos se passam. Ela estuda direito, ele se torna campeão olímpico e vai trabalhar em um conglomerado médico que possui o mais modernos hospitais e investe em pesquisa de ponta... Mas, durante esses muitos anos, ela engorda. O namoro esfria. E ela espera que ele proponha o noivado. No dia em que ela espera por isso, ele termina tudo e ela descobre que ele está namorando uma mulher que eles já conheciam desde adolescentes e que, no passado, era muito gorda, desajeitada, e tímida. Enfim, não vou contar todo enredo aqui porque acho que vale a pena você assistir. De verdade. É leve, é engraçado, é romântico... sobretudo, é envolvente!
Mas, queria versar um pouco sobre as primeiras coisas que fazemos na vida.
Eu sempre fui apegada ao instante em que as coisas acontecem: o momento em que os postes se acendem  na rua. O canto do primeiro pássaro de manhãzinha, quando o primeiro raio de sol, timidamente, dá o sinal de que vai surgir no horizonte. O instante em que você já não houve mais nem um passarinho cantar, anunciando que a noite chega.
Como mãe,  eu passei a valorizar ainda mais essas instantes e, sobretudo, as primeiras vezes em que algo acontece. A primeira ultrassonografia... deu pra contar todos os dedinhos de Sofia! A primeira vez que eu a senti mexer na minha barriga parecendo asas de uma borboleta batendo dentro de mim. A primeira vez que a senti soluçar dentro de mim - que agonia! A primeira contração mais forte. O primeiro choro. A primeira mamada. O primeiro banho. O primeiro sorriso. A primeira febre. A primeira vez que rolou, se arrastou, engatinhou, o primeiro passo. O primeiro dia na escola, o primeiro desenho, o primeiro dentinho que caiu. A primeira palavra... 
Ah! O milagre de uma vida se desenvolvendo! E os primeiros tudo!
É assim que uma vida se constrói!
Eu ainda me lembro de algumas coisas minhas. A primeira vez que andei de bicicleta... Minha bicicleta era vermelha, uma Cecizinha que ganhei de natal . Meu pai me ensinou na faixa verde  lá de casa. 
O meu primeiro beijo - a partir de agora, conto o milagre, mas não o santo! Hehehehehehe - o primeiro namorado... e por aí vai. 
Mas o que quero dizer aqui, nessas linhas que começaram a se delinear lá na Coreia do Sul, é que a gente tem o péssimo costume ocidental de, no correr da vida, esquecer de que ela é todinha feita desses primeiros momentos. Tudo o que a gente faz, mesmo que já pense ter feito milhares de vezes igual, nunca é igual! 
Quem foi que disse que um homem que mergulha em um rio, quando sai, nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem?  Porque o segundo que passa, já não é mais quando o outro vem! 
Clarice Lispector, em Água Viva, diz: "Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é."
Pois então! O que me prende aos instantes é, justamente, que ele escorre por entre os meu dedos e, quando vejo, ele já não existe e se tornou passado... daqui pra frente é só o incerto e fica eternizado em um presente que só o é na memória de quem viveu, petrificado como estátuas de um museu  de lembranças só minhas. 
Feitos do jeito que eu vi, que eu percebi, atormentados ou alegres dos meus tormentos, das minhas dores ou das minhas alegrias e do sublime que é um ser.
E aí, meu convite a você é: já visitou suas memórias Hoje? Quais os instantes você tem para lembrar? Quantos são os que você tem fabricado? Quantos você tem feito com o propósito supremo de guardar, com amor, no salão mais nobre desse museu - o coração?
A cada passo que dou dentro de mim, tenho muitas histórias pra contar... algumas dolorosas, outras neutras, a maioria muito feliz! 
E a tudo o que foi instante e primeiro, o agradecimento por fazer parte do acervo que construiu minha história até aqui! 
E a todos os instante que se sucederem daqui pra frente, eu digo: estou indo lhe fazer ser vida, do mesmo jeito como diz um escultor ao mármore, que lhe fará aquilo que lhe diz para ser. 
E como o rapaz que disse para heroína da novela que ela era o seu instante que possamos, como Clarice, nos apossar do é da coisa. Porque, daqui a um segundo, o é... já não é mais.

domingo, 31 de maio de 2020

Vou mais leve...

Eu não estou cansada...
Eu ficava cansada quando estava no auge da depressão. Não havia forças para levantar da cama todos os dias. Apenas motivação: minha filha. Afinal, ela precisava ir para a escola. Ela precisava ser alimentada. Precisava de uma mãe que cuidasse dos interesses dela. Precisava de alguém que acompanhasse as tarefas de casa. 
Mas, eu estava cansada! Nem falo do corpo. Esse ainda se cansa, mas é físico e eu resolvo. Resolvo quando a mão, o braço,o ombro e o pescoço doem ao escrever poucas palavras. Simples assim: paro. Depois, continuo. Cansa quando eu caminho alguns passos... doem os músculos da coxa, aqui, perto da cabeça do fêmur. Eu continuo. Mas, quando foi demais, respiro fundo e, se precisar, paro.
Mas, agora não estou cansada. E eu digo aquele cansaço de não dar forças para tomar banho. Escovar os dentes. Querer arrumar o cabelo. 
Mas, né? A gente ainda vai fazendo essas coisas, porque não vive só. Tem uma filha. E você é o exemplo. Afinal, sou a mãe, tenho de ser forte. Por ela. 
Eu não estou mais cansada. Nem de longe! Gosto agora de arrumar minha casinha, de fazer comidinha, de levantar - mesmo no meio dessa pandemia - e me arrumar. Colocar uma roupa bacaninha, mais arrumadinha, mas confortável para ficar em casa. Lavar a roupa, arrumar os armários, ir para o escritório e ler algo, assistir a um filme ou até mesmo participar de uma reunião. Fazer um curso à distância... 
Eu não estou cansada, não. Aproveito o tempo em que minha filha não está na escola para admirar sua beleza e, às vezes, até dar bronca para ela fazer atividades da escola. Mas,  entendo quando ela acha muito chato, pois é uma menina muito sociável.
Mas, de vez em quando, eu me canso... e cansei! 
Cansei de ver noticiários e ver todo mundo atacando todo mundo. É gado, é boiada, é palavrão, é gente daqui e dali se matando em ódio coletivo que se alastra mais que o vírus que, eu achava, já era mortal o suficiente.
E aí, eu tenho de pensar nos que são grupo de risco, nos que não são, nos que precisam trabalhar, pois não têm o que comer, preciso ficar atenta ao modo como pego na bendita  máscara, no modo como toco na porta do carro internamente, passar álcool 70% até na alma e ainda ficar louca porque o presidente falou ou disse algo, porque o STF resolveu ignorar a constituição que ele mesmo diz defender, que o Congresso está cheio do estrume da vergonha de uma nação representada...
E aí, eu me cansei! Cansei, e só assito ao jornal local por puro senso de praticidade - preciso, afinal, saber um mínimo sobre o pequeno quadradinho demarcado por Cruls e que chamo de lar.
Cansei! Poxa, tanta coisa mais importante acontecendo e todo mundo ficando maluco. O mundo enlouqueceu! E eu que pensava que não precisava mais ver o racismo ser filmado, fotografado, divulgado e documentado porque achei que nesse ponto da evolução humana já teríamos, como espécie animal, finalmente descoberto que somos todos iguais. Mas, não! Não somos, ao que parece! Meu Deus!, eu pensei, será que ainda temos jeito?
Sem contar que ainda vemos e vivenciamos as perdas de pessoas que amamos sem poder dar abraços, vivenciamos absurdos sendo cometidos com pessoas vulneráveis dentro de um hospital onde deveriam estar sendo bem cuidadas...
Esses meses estão sendo muito intensos. E aí eu cansei!
Mas, agora, não estou mais cansada, não. 
Porque, no meio no caminho inteiro eu tenho meu Jesus! No caminho Ele nos presenteia com pessoas maravilhosas que têm condições para ajudar a levantar seus iguais. No meio do caminho, a gente vê a justiça se levantar, de uma forma ou de outra. No meio do caminho, a gente observa dias mais lindos, pode aproveitar cada mínimo canto do que a gente chama de lar. Pode abraçar mais vezes quem a gente ama, aconchegar sem pressa e com exceço de ternura nossos filhos. 
Não estou cansada. Pois, entendi que as dores a perda de quem amamos podem até não passar, mas a saudade pode cobri-la como um cobertor quentinho de amor.
Entendi que eu tenho a força das orações silenciosas que faço o tempo todo,  sejam elas de súplicas, sejam elas de louvor, adoração e gratidão a Deus, pois a mim não pertence a justiça, muito menos a desse mundo.
Não estou cansada, porque entendi que, ou eu creio que Ele tem o controle de tudo e sabe o que faz, ou então, eu simplesmente jogo meu desespero para o mundo e espero um fim, sem esperança alguma de que algo faça um sentido. E uma história sem sentido no final, não é para mim.
Não estou cansada. Porque ganhei de presente o que eu mais queria: ficar na minha casa! Tiro tanta força daqui!
Há um descanso em meu coração e uma paz que nem eu mesma posso entender. 
Não estou cansada... E desconfio que sei o motivo. Eu acho que, finalmente, aprendi o que é ir ao meu Jesus, eu, que era tão cansada e sobrecarregada, para que Ele me alivie. E Ele me dá o jugo e o fardo da Graça. Essa, sim, é leve e dá descanso.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Na Passarela

   É engraçado como temos a estranha tendência de acreditar nas coisas ruins que dizem sobre a gente.
   Pode reparar... Muitas vezes - que mulher nunca? - a gente acorda se achando linda! Se arruma e sai. Ou fica em casa, mas se sentindo o máximo de linda. Sabe aquele dia em que seu cabelo amanhece perfeito, sua pele está um pêssego, você não está inchada e seu olhos estão mais brilhantes? Então... Basta chegar em algum lugar e alguém dizer algo do tipo: "Nossa! Eu não sabia que você estava grávida! ou, "O que você fez no seu cabelo, menina? Está bonito, mas eu preferia do outro jeito." Ou ainda, "você tem um rosto tão lindo, ia virar uma modelo internacional se emagrecesse" / "Porque você não tenta a dieta dos pontos / jejum intermitente?" E já ouvi também: "Essa depressão passa se você fizer exercícios", ou "suas dores todas irão desaparecer se você fizer exercícios, e você ainda vai ficar muito mais bonita e melhorar sua autoestima, porque irá emagrecer". 
  Toooooooooooodas essas palavras - basta uma dessas falas - bastam para arruinar um dia que amanheceu com um espelho mostrando uma mulher maravilhosa!
   Nesse dia, essa mulher foi dormir desfigurada por dentro: horrível, cheia de celulites, gorda, com peitos caídos, cabelo de vassoura, vasinhos na perna inteira e, claro, com a cara inchada de tanto chorar, ou pior, uma alma mais uma vez dilacerada.
   Sabe, aqui prestes a completar 41 anos, sinto que, na verdade, agora começo o verdadeiro aprendizado da vida. Mademoiselle Chanel, minha xará favorita, dizia que, infelizmente, as mulheres só se dão conta do quão lindas eram quando já é tarde demais. Pois é...
   Não que eu ache que já é tarde demais. Mas, sinto que perdi, pelo menos uns 20 anos ou mais de muita paz e amor com o meu espelho.
   Porém, vou me dar um pequeno desconto, pois há pelo menos alguns anos que decidi ser o mais gentil que posso comigo mesma e me amar o quanto mais eu puder, da maneira que eu puder.
    Passei alguns muitos anos da minha vida, entretanto, ouvindo coisas muito cruéis sobre meu cabelo, meu corpo, minha bunda, meu jeito de ser, minhas atitudes, meu comportamento, meus talentos, minha capacidade intelectual, sexualidade, meus amigos e até mesmo minha família. Ou seja, tudo o que eu era e tudo o que vinha de mim, ou tudo o que me fez era ruim.
    Ao cabo de tudo, eu mesma já acreditava em tudo aquilo. E olha que nem culpo de tudo quem disse e pensava tudo isso. Eu me responsabilizo por não me amar o bastante para não acreditar. Porém, eu era muito novinha e inexperiente, não tinha, digamos, o couro grosso. Somente com muito choro, muitas conversas solitárias e muita dor que eu fiz as pazes comigo mesma e estou aprendendo a me perdoar.
    Há poucos dias eu li a seguinte frase: "Perdoe-se pelos erros do passado, afinal, você não tinha o mesmo nível de consciência que tem hoje." Eu, mesmo assim, me entristeço, porque eu fico pensando no tanto de precioso tempo eu perdi carregando pesos que colocaram sobre mim e que eu aceitei.
    Mas, também penso que foram justamente todos os erros, todos os acertos, todas as pessoas com quem tive oportunidade de encontrar, amar, as que magoei e convivi durante esses meus anos de vida, todas essas experiências que talharam essa pessoa que eu me tornei. Estou, finalmente, sentindo que a vida se descortina à minha frente e gosto muito dessa nova perspectiva.
    Chanel também disse assim: "uma mulher que corta o seu cabelo está prestes a mudar a sua vida" e que "a beleza começa no momento em que você decide ser você mesma." E bem nessa toada eu, em 2016, resolvi assumir meus cachos e cortei radicalmente meu cabelo, tentando retirar as inúmeras progressivas que vinha fazendo desde 2006. Eu não tinha ideia de que, na verdade, uma imensa mudança estava se passando dentro de mim. Que, na verdade, eu já não estava mais suportando o peso que minha alma estava carregando. 
    Aqui mesmo no Universo eu relatei toda a minha história de ansiedade e depressão e nesse mesmo ano de 2016 eu comecei um grande processo de vontade imensa de mudar. Mudar alguma coisa e nem mesmo eu sabia o que era. Cortei o cabelo, mas voltei a alisar. 4 anos se passaram, já tentei até mudar de casa e aí, eu cortei o cabelo bastante mesmo depois de uma cirurgia de histerectomia e ainda por cima fiquei ruivíssima! E, ninguém imagina o quão bonita eu estou me achando! 
    Uma das melhores coisas da pandemia de COVID-19, sem dúvidas, é a gente não encontrar com pessoas sem noção e que não conseguem segurar a língua.
    À parte o corte de cabelo que as cacheadas progressivadas chamam de "the big chop", ou o grande corte, também decidi, definitivamente, parar de neuras com o meu corpo. Obviamente, sou mulher e, como toda mulher, há coisinhas que gostaria de mudar. A barriguinha que ganhei depois da gestação, diminuir os seios e fazer uma lipozinha de papada... e tudo o que a gente fica inventando para envelhecer melhorsinha, né?
    Um dias desses, pensando um pouquinho, eu cheguei à seguinte conclusão: E se eu não emagrecer mais? Passarei quanto tempo mais esperando perder quilogramas para viver? Quantos banhos de piscina com minha filha, quantos banhos de mar - apesar de não gostar muito - quantas roupas vou deixar de vestir, quantas coisas eu vou deixar de fazer só porque estou acima do peso ideal? DEFINITIVAMENTE, preciso me amar AGORA! Amanhã pode ser tarde demais.
    O não se amar traz solidão, solidão traz tristeza, tristeza traz muitos outros sentimentos ruins... E eu não estou mais disposta a sofrer todas essas coisas que já vivi por tanto tempo. 
    SE eu emagrecer, ótimo, se eu NÃO emagrecer, tá bom também. Afinal, estou gostando tanto de mim, gente! Achando-me bonita de verdade, gostando do espelho e não apenas fingindo gostar ou pensando que está passável a minha aparência. Cansei de acreditar em verdades alheias! Ou eu me amo o suficiente para confiar totalmente em mim mesma, ou acredito na imagem que os outros têm de mim. Afinal, filosofando, o que é belo? O que é verdade? Todas essas coisas são como chapéus, os quais as gente escolhe as formas que melhor  nos assente.
    Olha,  como eu era ruim comigo! Eu fui, por tanto tempo da minha vida, escrava das palavras alheias quando eu mesma tinha as melhores dentro de mim para dar. Nunca as guardei para mim, entretanto. E as palavras ditas por quem a gente ama têm muito mais valor. Eu já me perdoei por ter permitido que tantas coisas ruins tenham entrado em meu coração e afetado tanto minha existência a ponto de me paralisar em uma depressão longa e dolorosa.
    E aqui estou eu com meus cabelos encaracolados, com quilos a mais na balança, porém, muito mais leve e jovem no coração. Minha amiga Chanel também contou que "ninguém é jovem aos 40 anos, mas pode ser irresistível em qualquer idade."
   Ô, Chanel! Concordo em parte... Sabe o que é? O tempo de vida pode pesar no corpo, mas a gente pode ter, como disse o General Mac Arthur, a percepção de que "juventude não é um período de vida; ela é um estado de espírito, um efeito da vontade, uma intensidade emotiva..."
    E é bem isso! Nesse desfile de Chanel, rodeada de tantas pérolas, tweeds, camélias e sapatos bicolores, já me vesti e estou na passarela da vida, e agora me sinto a melhor e maior supermodel da minha própria vida. E, vestida linda e elegantemente, trago comigo a postura de quem vence, de quem perdoa, de quem sorri com o coração, de quem chora com verdade intensa das emoções que vive. 
    Que olha para frente, segue firme e caminha com a certeza de que aplausos virão do seu próprio coração, um coração que, finalmente, aprendeu a se amar. Finalmente!









   

segunda-feira, 3 de junho de 2019

De morango pra capim.


Há pouco eu revisava alguns marcadores do meu e-mail e "dei de cara", no melhor sentido da expressão, com um deles que eu denominei de "comentários anônimos do Blog"...
Ao mesmo tempo em que sei que algumas pessoas - isso por relato delas - escreviam anonimamente porque não conseguiam se identificar e até mesmo por questões outras que não vem ao caso dizer aqui, eu tropecei em alguns comentários dos mais cruéis. Pelo estilo, infelizmente, sabia até quem eram algumas das pessoas que escreveram aquelas "absurdidades". 
Chamaram-me de horrorosa, de desesperada para ter um homem, de pseudointelectual, chata e tudo o mais que puderam dizer.
E fico pensando o quão cruéis as pessoas conseguem ser com seu próximo e até mesmo com as dores e ainda as alegrias que sentem, sendo que estas passem a ser vistas como sendo imerecidas e causam raiva alheia.
Sinceramente, não escrevo e jamais escrevi para obter elogios. E as críticas sempre foram bem-vindas. Mas, acontece que crueldade e sarcasmo são coisas das quais eu passo muito longe de ver, ouvir, ler e mais ainda de praticar.
Comecei esse blog para curar minha alma. Engraçado, que uma dessas pessoas anônimas um dia me disse que eu falava que passava algumas coisas e era como se isso fosse mentira. Mas, mal sabe essa criatura de Deus - espero que seja dEle porque, às vezes parece que é do Diabo - o quanto eu sofri.
Não tive, naturalmente uma vida sofrida. Não passei fome. Tive tudo o que meus pais podiam me oferecer com todo o amor do mundo - boa educação, casa confortável, boas escolas, roupas bacanas -, sempre fui muito feliz por natureza e tive excelentes exemplos de honestidade, amor, companheirismo. Viajávamos todos os anos, estudei a vida toda em escola particular, tínhamos dois carros, mas nem por isso eu não andava de ônibus - muito pelo contrário.
Eu me casei, da primeira vez, com quase 20 anos. Foi uma festa de princesa. Mas, posso dizer que o casamento - aquele - foi uma decepção. Nada do que imaginava e havia visto na minha casa com os meus pais. Meu grande problema ali foi a solidão e o abandono. Por nove anos e meio eu fui só. Claro que houve momentos alegres, houve amizade e companheirismo. Mas, distância física e emocional enormes, e tudo aquilo foi morrendo pouco a pouco. E, pelo menos a meu ver, nos tornamos incompatíveis e totalmente desiguais.
E eu queria muito pouco, na verdade. Só companhia de alma. Gostar de fazer coisas juntos. E respeito, que ao final, nos últimos anos, foi só acabando. Acabei, infelizmente - e para a minha desonra - me envolvendo com um outro homem e casado. Motivo de grande arrependimento. Grande mesmo, mais do que eu possa superar. O envolvimento real, no entanto, começou depois que decidi acabar com o casamento de uma vez. E não voltaria atrás, nem que não tivesse envolvida com outra pessoa.
Meu arrependimento não foi de ter acabado o casamento. Não foi de ter tido outro alguém. Mas, foi de ferir o coração de uma outra mulher, mãe, esposa... Que havia devotado uma vida inteira a um homem que não a valorizava por suas muitas virtudes - ou pelo menos não a valorizava para mim. Fui tola como muitas outras mulheres são tolas. Acreditei no "conto do vigário". Acreditei no "eu não sou feliz", "ela não se arruma", "ela não se valoriza", "eu estou apaixonado por você", "você é a mulher da minha vida", "largo tudo por você"... E tantas outras mentiras que muitos homens dizem. E me senti cheia de mim, melhor que ela. Quando jamais fui e jamais serei.
Doeu saber que não era bem assim. Doeu porque também sou mulher. E sou filha, e hoje sou mãe. Doeu saber que ela soube da pior forma possível. E doeu ter de saber isso tudo por meio do próprio Espírito Santo. Não sei no que você acredita, mas eu creio. Fui criada em um lar em que Cristo era o Princípio e o Fim. E nunca, nem nos piores momentos da minha vida, nem quando me achei o lixo do lixo, senti que estava longe do meu Senhor. E tive um sonho que me deu a certeza de que aquela mulher orava a Deus pela sua família. Pedia a Ele que eu saísse da vida de seu homem, de seu marido, do pai das filhas dela. Confesso que, na verdade, ainda dói muito. Porque nunca tive a chance de me desculpar, de pedir perdão. Mas, tudo passa. O tempo passa. E soube que esse homem permaneceu com sua família até o dia em que foi embora dessa existência. 
Na minha cabeça, no meu coração e, de fato, o casamento havia acabado. E ponto. Eu não queria mais viver ao lado daquela pessoa, eu não queria mais sentir o abandono a que havia sido entregue, eu não queria mais ser desrespeitada e ignorada, eu não queria mais!!! E ponto!!!
Um papel nos unia. E nada mais. Porém, a indignação da criatura foi tamanha que fui expulsa de casa, tendo apenas 10 minutos para sair com minhas roupas e o que mais eu consegui levar em sacos de lixo... Tive o apoio da minha família, de amigos, mas o que me doeu não foi o fato de ter saído daquele apartamento, nem de ter me separado, de ter chegado a um fim. O que me doeu foi o fato de que anos devotados aos cuidados, à amizade e a uma compreensão que poucas mulheres teriam, terem sido ignorados, como se eu não passasse de uma vadia prostituta. E ele saiu como a vítima da história, e não eu, que passei anos a fio amargando um casamento que por muito tempo não existiu, de fato, nem física, nem emocionalmente.
Como se não bastasse, ainda tive uma outra experiência amorosa mal sucedida. Meteórica e, como tal, arrasadora. Bateu em mim com a mesma força do meteorito que extinguiu os dinossauros da face da Terra. 
Havia me trazido esperança e tudo de melhor da vida. Era companheiro, alegre, pessoa da melhor qualidade, que me enchia de tudo o que mais desejava. O tempo em que durou foi intenso e maravilhoso. O fim foi tão repentino como um raio. Não deu tempo de sequer entender. Aliás, até hoje eu não entendo bem, porém isso já ficou no passado, e o que não faz sentido com o tempo, jamais fará.
Mas, eu sofri. Sofri demais. Doeu mais que qualquer outra dor que eu tenha sentido até então. Hoje, meus vislumbres de dor insuportável são outros. Sou mãe. Daí você tira o que pode ser isso para mim. 
Tive de aprender a me virar sozinha. Estava morando longe dos meus pais que, mesmo depois de tudo, ainda me davam todo o apoio que podiam, mas eu queria saber como era. Fui protegida de tantas coisas. Apesar de jamais terem desconfiado de qualquer fato ou sentimento relativo ao primeiro casamento, eles acabaram entendendo tudo e me perdoando, me amando, me amparando, dia após dia.
Portanto, foi depois do fim de um casamento, do fim de um caso e do fim de um namoro arrasador que eu, cansada de tudo isso e entendendo que precisava compreender a mim mesma, que criei este Blog, o Universo Verbal. 
Não foi para mostrar meus dotes como escritora, tampouco para que qualquer dos envolvidos na minha existência lessem. Era para EU me ler. Não tinha dinheiro para pagar psicólogo e psiquiatra que, certamente diriam na época que estava deprimida. Então, minha alternativa foi a escrita. Algo de que gosto muito e que me faz muito bem.
Estou em uma outra fase da vida. Conheci o Paulo - ou melhor, ele me achou -, a gente foi antes amigo, depois namorados e agora marido e mulher, tivemos nossa filha... Conhecê-lo foi um divisor de águas na minha vida. Costumo dizer a ele que é como se eu, no meio de um deserto, visse um pequeno oásis e achasse que aquela era a maior fonte de água do mundo. Mas, quando o conheci, foi como se Deus me jogasse no Rio Amazonas!!! 
Ao mesmo tempo eu já estava com um bom emprego, mas fui chamada para assumir meu cargo em um órgão público, havia voltado para a casa dos meus pais e feito ali meu cantinho (tudo comprado por mim e decorado com todo o amor! Uma novidade na minha vidinha).
Não foi um arroubo apaixonado. Foi manso, singelo, gentil, cuidado, amigo, amoroso. Foi tão natural e calmo!!! Tão diferente de tudo. 
Eu resisti, confesso que resisti porque não queria sofrer mais, não queria fazer ninguém sofrer e porque eu precisava me compreender só. Me enxergar, me esquadrinhar. E a escrita me ajudou muito. O Blog nasceu junto com a amizade com o Paulo. Ele viu todo o meu sofrimento. Ele sabia de tudo. Ele conheceu tudo de mim. A melhor e a pior parte. E ainda assim escolheu me amar. Até o dia em que escolhi amá-lo.
Muitas dores se passaram. Muita água turbulenta se passou. Ainda sinto algumas dores na minha alma, como um osso fraturado que dói com o frio. Tenho sintomas de depressão, sou mais sensível do que gostaria de ser. Trato dores da alma que refletem no corpo.
Hoje compreendo que essas dores passarão. E, se não passarem, ao menos quero aprender a conviver com elas. Com a mesma alegria e felicidade de carrego na vida. Muitas vezes me senti caída. E levantei. E há oito anos, cinco meses e vinte e três dias, tenho o melhor motivo do mundo para me levantar... Minha Sofia, minha princesa, o coração mais lindo que tive a oportunidade de conhecer nessa existência.
Doce, meiga, de alma grande e generosa, compreensiva e amável. Gentil, educada... A teimosia em pessoa... A avoadinha da mamãe, que não esquenta com quase nada. E tão linda!!! Ela, sim, é o maior amor da minha vida. Meu bálsamo. O remédio que Deus me deu e que curou tantas dores de mim. E que me dá tanta força e coragem para levantar todos os dias.
Sou muito privilegiada. Realmente. Sou.
Aqueles comentários não ficaram no passado. Estão aqui na rede. Estão publicados. Foram ditos por alguém que não conhecia minha história. Foram ditos por pessoas que não sabem o que sinto e o que sou. De fato, minha vida é muito boa. Sempre foi. Mas, o que dói no coração e na alma pode ser fatal. Pode matar sonhos, pode destruir uma vida. E eu fiz o que pude para sobreviver a isso e salvar o pouco que podia para refazer minha história.
E eu escrevi para documentar essa história e nunca mais repetir os mesmos erros do passado. Para nunca mais me anular em função do outro. Para conseguir dizer o que penso. Para brigar quando for preciso. 
Ninguém precisa me detestar, nem me amar tampouco. Basta guardar o devido RESPEITO. Realmente, não nasci rica. Sou filha da classe média brasileira, tenho uma vida, por assim dizer, normal. Aqui em Brasília, morava e voltei a morar em uma cidade satélite e aqui mesmo no Blog fui menosprezada por isso, porque acredita-se que uma pessoa que more em Sobradinho não possa ser elegante, se vestir bem ou ainda ser refinada. Mas, para o lamento dessa pessoa anônima, gosto de ser tudo isso. Junto com meu marido de classe média já conheci muitos lugares do Brasil e do mundo. Vou a excelentes restaurantes. Visto boas roupas. Tenho minha casa própria. Meu carro. Falo dois idiomas. Sou estável no meu emprego. E tudo isso conseguido com meu esforço e com o do meu marido e até dos meus pais que são tão generosos. Minha filha estuda em escola pública. Na melhor delas, por sinal. E, até que eu ache conveniente, será lá que ela vai ficar. Porque acredito na escola pública. Eu sou parte dela.
Então, só quero dizer uma coisa: Anônimo(a) Ofensivo do meu coração, que essas palavras sirvam para você entender que a vida alheia é algo muito precioso. Todavia, como imagino que você não se respeita e não se ama, você não pode me respeitar, tampouco me amar ou sequer gostar de mim. Essa é uma premissa que aceito e que respeito. Só que educação é algo que a gente ganha dos pais da gente desde que a gente nasce. E eu imagino que você tenha sido bem educado(a). Não seja, portanto, ingrato com quem lhe deu instrução na vida. Ponha em prática o que aprendeu em casa e não use o artifício do anonimato para ofender, ferir, magoar as pessoas. Tal conselho é bem útil, tendo em vista que a vida não é tão amorosa e tão gentil como minhas palavras. Aqui se faz, aqui se paga, viu? Não se planta capim pra colher morangos, darling! 

A minha história de depressão e ansiedade.


ALERTA DE TEXTÃO!





Antes de começar, gostaria de dizer que eu não estou aqui chorando pitangas ou expondo a minha vida pessoal para ninguém. Meu objetivo é ajudar a quem está na mesma situação que eu há anos e, muitas vezes, não percebe o início da coisa e seu desenrolar. Hoje vamos falar de DEPRESSÃO E ANSIEDADE. Quer vir comigo? Então, vamos.

Vou precisar fazer um longo relato para que seja entendido os motivos pelos quais eu cheguei ao estado em que fiquei e como, aos poucos, estou melhorando com a ajuda da família, amigos e profissionais dedicados e talentosos, instrumentos nas mãos do Senhor para a minha melhora / cura.

Há muitos anos eu já começava a dar os primeiros sinais de depressão. Mas, não percebia. Eu tinha distúrbio do sono... mesmo criança, eu acordava várias vezes durante a noite e tateava muito as paredes procurando a saída do quarto. Qualquer barulho me acordava. Tinha muitos pesadelos. Mas, a depressão causa distúrbios diversos: desde dormir demais até dormir pouco. Porém, em ambos os casos, você nunca tem um sono restaurador. Sempre acorda cansado.

Por um tempo – nos vinte e poucos anos – dormia demais. Demais mesmo. Emagrecia sem motivo aparente ou então porque não conseguia comer mesmo. Eu até dizia que não gostava de comer, pois não tinha prazer em fazê-lo. O que acontece é que essas coisas são sutis. Você não percebe no seu cotidiano que elas estão acontecendo.

Depois do divórcio do primeiro casamento, continuei a apresentar problemas como sono. Mas, dessa vez como na infância. Acordava com qualquer barulho e dormia muito pouco, só que eu achava que era suficiente dormir 2 horas por noite, 4 horas pois, mesmo assim, eu tinha muita disposição para realizar minhas tarefas cotidianas no trabalho e, depois do trabalho, por um tempo, ainda fazia cursinho. Chegava em casa em torno de 23h30 e ainda ficava acordada até as 02h, 03h da madrugada. O outro dia começava e eu ficava a todo vapor no outro dia. E o tempo foi passando. Nunca procurei ajuda porque achava que eu era assim e que era normal. Também não procurei ajuda quando aconteceu a separação para resolver algumas coisas dentro de mim. Segui assim mesmo, sem contar com ninguém para me ajudar com meus sentimentos muitas vezes confusos. Resolvi então começar a escrever um Blog. Ali eu desabafava meus sentimentos e reflexões, mas algumas pessoas começaram a interferir. Negativamente e positivamente também. Sinceramente, não me doíam tanto as críticas porque sei que ninguém é obrigado a gostar de mim. Só que lidar com falta de respeito é foda. Mas, eu entendo que ninguém é unanimidade e há gente muito mal caráter mesmo no mundo. Paciência...

No ano de 2010 eu já estava há quase 2 anos no STJ como terceirizada. Havia passado pelo Serviço de Saúde e era secretária do gabinete de um ministro quando conheci meu marido. Pois, depois de 4 anos de espera, fui chamada para assumir meu cargo como professora de Espanhol e Português na Secretaria de Educação aqui do DF. Então, ao final do ano de 2010, eu já estava trabalhando, casada e em janeiro de 2011 com minha filha linda nos braços.

O início da carreira de professora não foi fácil. Fiz o concurso para trabalhar no Centro Interescolar de Línguas da SE, onde as salas de aula contam com 20 e poucos alunos apenas e há muito menos turmas por professor, por se tratar de um serviço especializado. Os recursos são melhores, enfim. Mas, aquele era o último ano para que o Espanhol virasse matéria obrigatória no ensino regular também. Fui chamada para o ER. E qual foi a minha surpresa ao saber que cada turma teria apenas uma aula por semana! E o detalhe: Não havia material didático para a disciplina. A carga horária de um professor de jornada ampliada aqui no DF é de até 30 aulas semanais em sala de aula, fora as coordenações no período contrário. Pois, a minha escola tem 24 turmas por turno, com cerca de 40 alunos em sala. E eu dava aula para todas essas turmas. Uma aula por semana. Sem material didático.
Eu me lembro que no 1º bimestre do ano de 2010 não havia bloco de provas lá na escola. Havia a semana de provas, mas não o bloco e eu levei mais de 900 provas para corrigir. Mesmo com gabarito e uma pequena máscara, passei 3 dias para corrigir junto com meu então namorado, Paulo. Fui para a casa dele e mandamos ver na correção. Depois, mais o trabalho de colocar todos esses resultados nos diários. Eram 24 diários... durante aquele ano minha carga era essa. Mas, teve ano em que eu tive uma turma de língua portuguesa e mais 24 de espanhol. Teve ano que dei aula apenas de português mais 6 turmas de PD em que dava aula de leitura, interpretação e produção de textos, sendo mais ou menos 240 redações por semana. Neste ano de 2019 minha carga horária foi de 30 horas fechadinhas... porém, como estou coordenadora por mais este ano, estou com uma professora substituta dando aula para as minhas turmas e ela já me relatou que é uma jornada exaustiva, pois, além das aulas de Espanhol, ela ficou com uma turma de Português e ainda outras de PD.

Teve ano que estive – assim como estou – em Coordenação. E é um trabalho difícil. Acho mais fácil lidar, muitas vezes, com alunos do que com alguns colegas. Mas, tudo faz parte... Beleza. Fico fazendo o Jogo do Contente: meu emprego me dá tudo o que preciso e muito mais. Me ajudou a realizar muitos sonhos junto com meu marido e minha filha. Nossa casa é linda e aconchegante, do tamanho preciso da nossas necessidades, temos carros, conseguimos nos alimentar muito bem, incluindo as minhas restrições alimentares que são caras.

Eu já andava muito cansada pois, além de tudo isso, aos 2 anos Sofia foi para a escola. E adoeceu demais, demais mesmo. No fim do ano contamos junto com o pediatra dela quantas consultas foram: 18. Fora as de pronto socorro e no STJ com as pediatras de lá. Pelas minhas contas, foram mais de 24 idas ao médico no ano de 2013. No final daquele ano eu quebrei o pé – graças a Deus! 60 dias dependendo dos outros, pois não podia apoiar o pé no chão. Maravilha, pois estava precisando desacelerar.

No ano de 2014, em março, eu e minha pequena tivemos dengue. Ela sarou logo, mas eu fui só piorando até ser internada com nível de plaquetas baixíssimo. Fiquei parecendo um alien. Vermelha, muito vermelha e muito inchada. Fora que sentia dores excruciantes em todo o corpo, sobretudo na planta dos pés, portanto, ficar em pé era um martírio, sem falar no cansaço extremo.

Não bastasse, sofri um assalto a mão armada na porta da escola de minha filha logo depois de deixa-la na escola. A criatura não levou o carro. Em compensação, levou muito da minha paz. Foi ali que, além das tendências à depressão que me acompanharam por anos, eu comecei a desenvolver transtorno de ansiedade, oriundo de um estresse pós-traumático que nunca tratei. Fora isso, os primeiros sintomas da fibromialgia começaram. E, também nesse ano, eu tive muitos episódios de taquicardia violentos e, em um deles, fui parar no Hospital do coração com 196 bpm. Fiquei lá por cerca de 8 horas tomando medicações e sem poder levantar sequer para fazer xixi. Muitos exames depois, a constatação: estresse e ansiedade, pois no coração nada havia, graças a Deus!

Havia muitos anos que sofria de dores na coluna. Depois disso, a dor virou uma hérnia de disco na lombar associada a alguns outros abaulamentos e protusões na cervical. Tratamento para as dores e, enfim, comecei a tomar o primeiro remédio controlado, o Cymbi na dose mínima. Achava que era para as dores crônicas na lombar e ciático, mas percebi que fiquei mais calma e que alguns pensamentos paranoicos sumiram.

Depois do assalto, eu comecei a vislumbrar milhares de formas de minha filha morrer. “E se ela estiver no escorregador e cair lá de cima”? “E se ela cair e bater a cabeça na quina de uma mesa”?, “E se o assaltante voltar e eu estiver com ela, o que eu faço para tirá-la do cadeirão”? E se, e se, e se... Esse “e se” me atormentava dia e noite e eu mal percebia. Comecei a notar isso quando tomei o remédio e certo dia ele acabou e eu fiquei uns 3 dias sem tomar. Além dos sintomas normais da abstinência – tontura, náuseas, dor de cabeça e aumento considerável das dores pelo corpo e uma vontade insuportável de chorar uma caixa d’água -, eu comecei a ser torturada em nível máximo por aqueles pensamentos “e se”. E nunca contava isso para ninguém. Foi aí que percebi que o remédio era meu escudo.

Foi em 2015 que um dos meus médicos começou a dizer a palavra FIBROMIALGIA. Minha mãe tem, então eu já sabia que, por ela ter um componente genético muito forte, era muito provável mesmo que eu a tivesse. E os sintomas batiam: fadiga crônica, dores por todos os lados que pioram quando nos estressamos ou entristecemos, inchaço por todo o corpo, rigidez nas articulações ao acordar, volume de dor alterado em algum local específico em que já temos algumas moléstias. Foi nesse ano também que começaram a aparecer as dores no ombro direito e no músculo epicôndilo, que é um dos responsáveis pelos movimentos das mãos, especialmente o de escrever, digitar etc.

Começou como um cansaço por escrever no quadro. Então, quando eu começava, tinha de parar frequentemente de escrever para baixar o braço. E lá vamos nós começar a investigação. Bursite, tendinopatia e tensão exagerada na área do pescoço e ombro – Síndrome Dolorosa Miofascial – SDM – na região cervical e também um ponto gatilho doloroso na lombar. Mas, não parei de trabalhar e segui realizando os tratamentos que precisava. Fisioterapia, medicação, compressas e emplastos quando preciso.

No ano de 2017 a dose do Cymbi foi aumentada. E ele, ainda por cima, simulava sintomas do climatério, como as ondas de calor. Eu não dormia mais direito. Acordava toda hora e, quase toda noite, molhada de suor. Molhada mesmo. E inchada demais. O tempo todo inchada. Engordei muito mais durante esse período. Mais de 10 quilos. Para quem já estava mais de 20 acima do peso, foi um golpe. Minha autoestima foi pro lixo. Estava me sentindo pesada, no corpo e na alma também, só que não deixava de me arrumar de jeito nenhum. Isso era até uma forma de me fazer sentir mais bonita, pelo menos no rosto e cabelo e comprava roupas – A-DO-RO! – como um modo de “esconder” o excesso de peso.

Todas as vezes que, por algum motivo não tomava o remédio, eu ficava péssima. Os pensamentos “e se” vinham com tudo. Mas, segui. Parei algumas vezes de trabalhar devido as dores na coluna e agora no braço também. E eu só queria mesmo ficar em casa. Ficar no escurinho do meu quarto. E dormir. Mas, eu não dormia bem. Meu sono não era reparador. Sair para trabalhar já estava muito ruim. Muito mesmo. E eu seguia. Já desconfiava que precisava de ir a um psiquiatra a essa altura, mas não ia.

Em 2018, finalmente conversei com Paulo sobre tudo o que acontecia. Ele disse que achava que eu poderia parar de tomar o Cymbi, mas eu desatei a chorar. E contei tudo para ele. Foi quando ele tomou pé da minha situação. Ele nem imaginava que eu estava passando por tudo aquilo sozinha.
Entrei em licença médica mais uma vez por causa de dores na coluna e no ombro. Quando fui para a perícia médica do meu trabalho, o perito disse que aquilo era um caso clássico de fibromialgia. E que ortopedista não sabe nada sobre isso – aham! Me disse que eu deveria procurar um reumatologista e um psiquiatra, pois são eles que tratam dessa doença. E que eu deveria tentar emagrecer, pois a baixa autoestima poderia me levar a uma depressão...

Bom, até então eu não estava me preocupando demasiadamente com meu peso. Apesar de tudo, eu sempre me achei bonita e sempre gostei muito de me arrumar. Mas, aquelas palavras foram um golpe na minha autoestima mesmo. Olhei-me no espelho do elevador e aquela mulher gostosa que tinha saído de casa, estava voltando sentindo-se uma baleia orca. Fiquei envergonhada da minha aparência.
Fora isso, uma vontade imensa de mudar. E mudei a cor do cabelo. De pretíssimo para loiro platinado. Isso já em 2017. Aliás, já em 2016 eu estava com essa vontade louca. Tanto que cortei meu cabelo curtíssimo! Ficou lindo, mas não seria do meu feitio fazer isso em tempos mais normais.

Também surgiu uma vontade de mudar de casa. Para outro condomínio. E, divagando, não acho que isso seja ruim. Acredito que vou melhorar o que me foi dado, vou dar um “up grade” no patrimônio. E isso aconteceu também porque meus pais foram embora daqui. Eu me senti perdida e sem chão. Toda minha estrutura e logística cotidiana se apoiava neles, em parte. Eu tinha a segurança de ir trabalhar quando o Paulo não estava em casa e deixar Sofia porque meus pais cuidariam dela. E isso acabou. Por completo. E mais uma tristeza apareceu. E a vontade de ficar em casa também. O trabalho já não me satisfazia.

E resolvi seguir o conselho do médico. Procurei as duas especialidades. A reumatologista nem tocou em mim. Muito menos me pediu exames para descartar a fibromialgia. Manteve o tratamento que meus ortopedistas já haviam prescrito – o Cymbi. Nunca mais voltei para dar notícia a ela.

Em novembro fui, finalmente, ao psiquiatra. E lá vamos nós aumentar de novo a dose do medicamento. A única novidade foi que me mandou fazer psicoterapia. Mas, a Gabi foi? Não. Ele me mandou voltar em fevereiro de 2019. Foi lá que ele me disse o que eu já sabia há muito tempo: depressão, ansiedade e fibromialgia. O Cymbi era o remédio mais indicado para esses casos, pois tem uma excelente resposta à dor.

Em dezembro a depressão atacou com tudo! Muito choro, muita vontade de sumir, pensando que o mundo seria muito melhor sem mim... sim, isso é um início de pensamento suicida. Nunca falei isso para ninguém. Mas, sim, eu pensava que queria mais morrer do que estar viva. Mas, eu pensava na minha filha, pensava nos meus pais, na minha família e no sofrimento que isso traria a todos e então eu sacudia a cabeça para os pensamentos irem embora. Só queria ficar em casa e não precisar sair para nada. O trabalho era até um alívio, pois me tirava de casa. Mas, estava de férias, o que eu poderia fazer? Tinha de lidar com as dores que me atacavam de todos os lados. Por dentro e por fora. Até o couro cabeludo doía. Eu me sentia uma inútil: inútil para controlar minhas finanças, inútil para controlar meu peso, inútil para ser uma mulher decente para meu marido, inútil como dona de casa, inútil como mãe. Para quê viver? Eu pensava.

Em janeiro tomei a decisão de parar de tomar o Cymbi. De uma vez. Não tinha mais em casa e eu não ia mais comprar. Vivi o inferno! Passei muito, muito mal mesmo com a síndrome de abstinência da duloxetina.

Eu não tinha vontade de falar. De sair da cama. As dores vieram com tudo, tudo mesmo. Tontura de quase fazer cair. E uma vontade de vomitar tremenda. Eu, de fato, vomitei muito. Mas, eu pensava que era melhor passar um tempo sentindo isso do que continuar a suportar todos os efeitos colaterais do remédio. Inchei muitooooooooo! Mas, consegui me livrar dele. Demorou mais de um mês, mas consegui.

Em fevereiro voltei ao médico antes de retornar à escola. E ele meio que me deu uma bronca, mas respeitou minha decisão. E me deu novo encaminhamento para a terapia. Mããããããããs... Comecei a jornada de trabalho mais escola de Sofia. Só que eu me via cada vez mais insatisfeita. Com mais vontade ainda de ficar só em casa. Não queria trabalhar mais. Tudo estava muito ruim... Meu quarto era meu refúgio e eu chorei muitas vezes sozinha no banheiro para que ninguém visse o meu estado.

Até que um dia eu fui destratada por um professor na frente de todo mundo e eu desabei... Disse pra mim mesma que isso tinha de acabar. Estava muito mal das dores. Da coluna, do ombro. Antes desse episódio, eu travei a coluna em casa. Durante o carnaval. Eu sequer conseguia caminhar. E entrei de licença por poucos dias, mas o trabalho estava me exaurindo. Depois do entrevero com o colega, eu simplesmente disse para mim mesma que bastava. Eu precisava parar. Meu pescoço, ombro, braço, coluna, ciático doíam tanto que eu tinha de recorrer aos opiáceos da vida.

Procurei meu médico ortopedista que preparou um relatório bem bom, fui a uma psiquiatra que já atendia a uma colega minha e foi aí que o tratamento mais intensivo começou. Recomecei a tomar antidepressivo, mas agora um outro, e ela pediu a psicoterapia também. Além disso, minha tia, preocupada comigo, me recomendou uma clínica especializada em dores crônicas. E lá fui eu procurar um médico acupunturista. E disse para mim mesma que eu seguiria todos os tratamentos à risca. Inicialmente foi 1 mês de licença.

Muitas medicações, muito choro, muito esforço, muita dor, agulhadas intermináveis, dieta sem glúten, sem lactose e sem açúcar, psicoterapia e estou aqui agora em maio, bem melhor. Bem melhor mesmo. As coisas começaram a fazer sentido dentro de mim. Descobri que meu coração guardava um monte de entulho e que eu precisava jogar aquilo fora. Descobri que não sou satisfeita com muitas coisas, mas agora tenho com quem falar. Só preciso agora aprender a dizer algumas coisas para quem, de fato, precisa ouvir o que eu tenho a dizer. E preciso também aprender a não deixar que me agridam deliberadamente sem que eu reaja ou demonstre que estou insatisfeita com aquilo.

As dores melhoram muito, pelo menos aquelas superficiais que me incomodavam a ponto de um homem com a barba por fazer não poder encostar no meu rosto que eu tinha vontade de gritar, pois pareciam mil agulhas me perfurando. Ainda sinto muita dor no braço direito, do cotovelo até a cabeça... Uma coisa horrorosa. Mas, com a qual eu tenho aprendido a conviver.

Aprendi que depressão não é ingratidão minha. Pois, uma das minhas maiores angústias era pensar que eu tinha tudo o que sempre sonhei e lutei para ter. Que isso não é um estado que se escolhe estar. Ficar na cama o tempo todo, sabendo que eu tinha roupa para lavar, louça pra lavar, casa para arrumar, uma filha pra cuidar e um marido que espera por você estar bem sem reclamar de dor o tempo todo ou triste e largada pelos cantos sem vontade sequer de tomar banho e escovar os dentes é algo que ninguém almeja. Muito menos eu, que sempre fui a entusiasmada, a arrumada, a cheia de ideias e de autoestima.

Aprendi que ansiedade não é algo que se procura. Que se quer ter. Não é algo que escolhemos.... Pensar em tragédias o tempo todo, viver cansada, sem energia para nada, apesar de a cabeça não parar um segundo é desesperador! Quem quer isso?

Com tudo isso, eu emagreci. Não tenho mais diarreia crônica, estou com mais disposição e dormindo muito melhor. Não sinto mais aquela tristeza paralisante. Ainda sinto, mas já aprendi quais são alguns gatilhos e tento controlá-los da maneira que posso. Tenho ainda algumas reações exageradas a algumas emoções, mas eu entendo racionalmente que não preciso ficar de tal forma, ainda que não consiga eu agora aprendi que meus sentimentos também importam. Nem sempre é exagerado. É só o que eu sinto e o modo como sinto. Nada mais.

E eu me sinto cada vez mais próxima de Jesus. Muito. Pois Ele tem me ensinado cada dia mais sobre si mesmo. Sua Graça, Misericórdia e Bondade. Sua Justiça. Para algumas pessoas, a depressão, a ansiedade são estados de quem está fora de Deus. De ingratidão. De falta de fé. De falta de igreja. E não é!

Eu passei por tanta coisa sem pedir ajuda de ninguém. E isso foi um erro enorme! Eu engoli muitos sentimentos com medo de magoar os outros. Com medo de que soubessem como era a minha vida. Com medo de não ter aprovação. Com medo. Vivi com medo. Ele ainda não passou por completo, mas eu estou tentando me livrar dessa criança que ainda insiste em viver em mim, que insiste em ter medo do abandono, medo de perder, medo de não ser amada o suficiente, medo de não ser aprovada. Tudo isso estava aqui dentro guardado em segredo. E eu estou abrindo as portas. Eu acredito que o emagrecimento seja até por causa disso também. Porque a alma pesada também engorda o corpo. E a gente come também os sentimentos. De forma literal e figurada. Os doces, a comida saborosa são alegorias da alegria que a gente tem vontade de ter e não tem. E daí acaba mandando para dentro.

Sigo mais leve esse caminho. Portanto, eu quero dizer a você: Você não é empecilho à felicidade e bem-estar de ninguém. Cada um é responsável por si mesmo neste quesito. E em outros também. Você pode estar no escurinho agora com uma pequena luz à sua frente lendo isto tudo que disse aqui e se vendo na minha história ou em parte dela. Pois, saiba que se eu consegui, você também pode. Você não é ingrato. Seu problema pode não ser falta de Deus na sua vida. Você pode estar em uma igreja e ser um membro ativo e até um líder ou um pastor. A depressão pode pegar você também. E quem disse que não? Até o apóstolo Paulo disse que APRENDEU a viver contente em toda e qualquer situação. E isso quer dizer que, em algum momento, ele esmoreceu e duvidou. Porque era humano como eu e você.

Eu, como ele, também percebi que tenho um espinho na carne. Aliás, vários. Já orei. Já pedi para os outros orarem. Já acreditei que não teria mais isso, já deixei de acreditar... Agora, sigo ouvindo de Jesus o tempo todo na cabeça e no coração: “A minha Graça te basta e o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Ora, se o meu Senhor enfrentou a agonia da Cruz, o que são algumas dores no meu corpo que um dia perecerá? O que importa é o espírito estar em Cristo. Pois, Ele quem vive em mim! Que honra maior posso querer nessa vida e na vindoura?

Então, baixa a bola da espiritualidade frágil que pensa que é porque está acometido por um mal psiquiátrico – que é considerado uma doença mental – que você tem menos importância dentro de uma comunidade. Portanto, se está fingindo que está tudo bem, pare agora! E mostre a sua verdadeira face. Pois é só assim, admitindo que temos alguma coisa para tratar que nos tratamos.

Enquanto eu não disse para mim mesma o que já sabia, enquanto eu não admiti que precisava de ajuda eu não busquei ajuda, portanto, não fui ajudada. Estou muito bem acompanhada agora por seres humanos capacitados e essa capacitação é obra – para mim – de Deus, pois é Ele quem dá a vocação, a inteligência e a vontade. E, principalmente, a vida.

Entendo o seu desânimo, entendo os muitos momentos de desespero, entendo o fato de que você quer aliviar a sua dor de qualquer forma, mas a automutilação, a vontade de morrer e a vontade de ficar só sobre a cama sem saber nada do mundo não vai fazer a dor passar. Pelo contrário. Já imaginou quantas pessoas à sua volta amam você? Era nisso que eu pensava o tempo todo. Mas, eu preciso dizer que você precisa aprender a se amar também. E muito. Comece mostrando quem realmente você é. Tira essa máscara, essa “persona” e mostra o olho inchado de tanto chorar. Mostra suas lágrimas, a olheiras de não dormir. Mostra as cicatrizes, fala para o mundo que você está em DEPRESSÃO, ou que sofre de ANSIEDADE, ou os dois.

E procura e peça ajuda!!! Urgente! Pois você é a pessoa mais importante. Não adianta dizer que ama os outros se não se ama. Isso é uma mentira muito mal contada. Se a gente não se ama também não sabe amar o outro...

É isso... eu precisava dizer tudo isso. E espero, sinceramente, de coração aberto, que você possa entender esse processo todo por que está vivendo neste instante. E, se você leu até aqui e não é portador dessa doença mental, saiba que ela existe. Que ela não é frescura. Não é preguiça. Não é má vontade. Na sua frente há pessoas sorridentes que bebem as próprias lágrimas do coração e você nem percebe até o dia em que ela não está mais convivendo com você, ou porque está de licença, ou porque ela já desistiu de conviver com o resto do mundo, ou pior, porque tirou a própria vida, pois já não aguentava mais conviver com a dor de ser quem era.

Seja mais empático. Aprenda a ter compaixão. A pelo menos tentar sentir a dor do outro. Saiba que nessas linhas encontra-se apenas um lapso de mais ou menos 10 anos da minha vida. Se eu fosse contar tudo, não sairia daqui. Então, pense que há uma história não contada, um livro que não foi aberto em uma pessoa que está dormindo demais, que não quer mais trabalhar ou estudar, que está irritada brigando com todo mundo... ou até sorrindo, fazendo palhaçadas para esconder seu verdadeiro estado.

Obrigada por chegar até aqui. Agradeço de coração por você ter tido tanta paciência.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vamos estar falando - ops! - falar de preconceito. Do linguístico.

Quem me conhece muito bem, sabe muito bem do que gosto e do que não gosto. E sabe de mim. Mas, só vale para os que, de fato me conhecem. E posso garantir uma coisa: posso contar nos dedos de uma mão apenas quem são esses.
Pois, essas mesmas pessoas também sabem que gosto muito de documentários e não assino uma TV a cabo que não tenha muitos canais do gênero, além de canais infantis que satisfaçam meus anseios quanto à educação da minha filha. 
Ainda, sou apaixonada pelos reality shows água com açúcar do Discovery Home and Health, além do Discovery World e outros. Assisto muito, aliás, o H & H... E há uma curiosidade, também sobre mim, que pouquíssimos sabem, incluindo aqueles que sabem muito de mim... A-do-ro programas que falam de casamentos: da organização, decoração, passando pela escolha dos vestidos (amooooooooooooo O Vestido Ideal)... E eis que recentemente o canal incorporou programas brasileiros em seu cardápio. E hoje, assistindo a um deles - do qual, por sinal, eu gosto muito - algo me chamou muito a atenção. E foi um detalhe que, para alguns passaria despercebido, ou não. 
Sou professora de Português e Espanhol. Mas, sou apaixonada pelo Português. Suas particularidades, sua beleza, sonoridade, sua arte, sua história...
Gosto de dar aulas sobre ele. Ensinar a escrever e entender o que se escreve. Tentar, ao menos, despertar paixões pela arte contida na literatura... Trazer sentido para as regras gramaticais - essa parte, nem não gosto muito.
No primeiro ano do Ensino Médio ensinamos os fundamentos do idioma. Como ele se formou, historicamente falando, como se difundiu, o que é língua, o que é linguagem, e a tal da VARIAÇÃO LINGUÍSTICA.
E, na toada da tal da variação, nasceu também o preconceito. Pasme você que está a ler esse modesto Blog em que desabafei e desabafo sobre os meus sentimentos em forma de palavras, que preconceito pode ter muitos nomes, inclusive pode viver no meio das humildes letrinhas que formam nosso vernáculo.
Eis que, depois de um gostoso soninho da tarde que eu amo, assisto a um daqueles programinhas so sweet que tanto adoro. Um brasileiro chamado "Negócio dos Sonhos", um reality que mostra o cotidiano de duas sócias de uma empresa chamada Marriage, de São Paulo, um negócio especializado em cerimonial de casamentos.
Depois de uma agradável visita à maior metrópole do país, eu concluí que são prestadores de serviço sem igual. Pessoas extremante competentes, sabem fazer qualquer coisa como se sempre houvera sabido fazê-lo.
E eu sempre admiro a competência extrema das sócias, de como elas se desdobram para que tudo saia perfeito para os noivos. Como cuidam dos mínimos detalhes de forma que a preocupação dos nubentes seja a mínima possível. E, lá na empresa delas, depois que a recepcionista as deixou, outra foi contratada. A moça em questão havia sido operadora de telemarketing... Preciso dizer mais? A coitadinha era dona de um gerundismo sem tamanho. Era o primeiro dia dela na Marriage. 
Um noivo liga, ela atende e, no meio de tantos "vamos estar cuidando", "vamos estar fazendo", etc, a ligação cai. Ela comunica o fato às sócias e, no final do dia, ao fazer o clássico balanço do primeiro dia da recepcionista, uma das sócias relembra a ela o episódio do noivo cuja ligação caiu. E ela disse o noivo tinha ligado no celular dela depois e que a ligação não havia caído, afinal, e disse que o rapaz não teve paciência porque a nova recepcionista estava falando como se fosse uma operadora de telemarketing. Ele disse à dona da empresa que desligou o telefone!
De fato... Ela usava muito o gerundismo. Mas era o que ela era! Então, pensei tanto no tal do preconceito linguístico.
A empresa em questão é especializada em clientes de alto padrão, cujas expectativas são tão altas quanto o dinheiro que investem. Nada mais justo. Mas, o que mais me chamou a atenção no episódio, não foi o fato de a criatura não gostar de gerundismo. Eu também não gosto. Aliás, detesto! O que me incomodou foi a grosseria de ter batido o telefone na cara da pessoa. Foi a indelicadeza de sequer dizer: "ok, querida, mais tarde eu ligo para obter maiores informações", ou de não ter pedido para falar com uma das sócias. Mas, foi a deslealdade de ligar depois no telefone pessoal da dona da empresa para falar mal da garota. 
O que ele estava pensando? Imagino que pensava que não tinha tempo, nem paciência para aquilo. 
Sabe, se eu fosse a dona, eu diria a ele que ele agiu muito mal. Que ela estava em seu primeiro dia, que estava aprendendo, que estava se dedicando - no gerúndio, sim, porque são atos que se fazem e se aperfeiçoam eternamente -, que superaria aquelas dificuldades. E diria também que ele poderia procurar outra empresa porque ali ela não gostava de lidar com riquinhos histéricos que não têm sequer paciência de tratar com civilidade uma pessoa que fala fora dos padrões DELE.
Essa é a MINHA opinião. Vai ver que é por isso que sou professora e não uma empresária de sucesso. Vai ver.
O preconceito linguístico me dói profundamente na alma. Eu sinto uma tremenda injustiça nesse ato. Em como alguém pode ser tão cruel com pessoas que não são iguais a ele. Que não tiveram as mesmas oportunidades. Garanto que a recepcionista estava dando o melhor de si para atender com o máximo de educação aquele noivo, e estava sendo o mais prestativa possível. 
Não suporto falta de gentileza, mesmo que disfarçada em uma educação impecável. Muitas vezes eu ouço por dia o tal do "nóis vai", o famoso "libera nóis, professora"... E tento ensinar com muita ternura, a variedade padrão. Tenho ensinar que eles terão mais portas abertas quando falam a variedade culta da língua. Que ela pode ser um instrumento de dominação, que ela pode trazer ganhos, mas também pode ser cruel e assassinar expectativas e sonhos.
Os detentores do conhecimento, aqueles que fazem e executam as leis escondem o idioma do povo, escondem, portanto, seus direitos, escondem deles as possibilidades de melhorar sua condição social e, portanto, econômica.
É, também, por causa dessa dominação que eles se escondem por trás de mordomias e privilégios e dizem o que devemos fazer ou não. É por causa disso, também, que fazem suas leis obscuras que ferem os direitos dos mais humildes, mas eles não têm como se defender, porque simplesmente lhes é negado o acesso ao instrumento que faz as normas: o idioma. Mas, não aquele que se usa para simplesmente se comunicar, e sim aquele se se utiliza para discriminar.
Não estou, veja bem, criticando as donas da Marriage, muito pelo contrário. Achei louvável o fato de terem chamado a Jaque - esse era o apelido da menina - e terem conversado com ela e até terem brincado com o fato de que ela era uma sujeita cheia de gerundismos. Ela vai conseguir, eu sei. E eu acompanharei sua melhora. Sabe por que? Porque sei que ela se esforçará, que ela vigiará e que ela vai superar o que por anos foi inculcado em si. E o treinamento que ela recebeu foi esse. Que o "vou estar passando", "vou estar fazendo", "vamos estar ajudando" é educado e gentil. E isso, para mim, é o mais importante. Embora, com gentileza eu lhe ensinasse que não é o culto. Que os clientes esperam a mesma cultura que eles têm de quem os servem.
Eu queria muito que aquele noivo se envergonhasse de ter desligado o telefone na cara da Jaque. Queria demais que ele tivesse ensinado a ela o que era correto. Sabe, eu já fiz isso. Eu pedi licença para uma atendente e perguntei a ela se poderia lhe ensinar algo. E ela disse que sim. E depois me agradeceu muito. Acredito que ela tenha sido sincera. Acredito mesmo.
E eu acredito que as pessoas rudes também podem ter cura. Embora isso seja bem mais difícil. 
Meus sinceros reconhecimentos à Marriage por sua dedicação e espero que elas tenham - mesmo no meio da sua falta de tempo - muita paciência com a Jaque. Ela merece, só porque se predispôs a aprender. E tomara que consiga. Estou torcendo por ela.

Faxina!

Tenho a sensação de que, de uns tempos para cá, minha vida está sendo colocada em uma esfera pequenina... Eu fico pensando que, de tão pequ...