domingo, 26 de dezembro de 2010





Você está chegando.... Assim mesmo, no gerúndio que eu tanto condeno.
Daqui a pouco nos conheceremos, de fato. Assim, face a face. E, eu acho, você precisa saber algumas coisas, ou melhor, eu gostaria que você soubesse.
Você foi gerada com muito, muito amor. Com um amor delicado, paciente, persistente, feliz, alegre, que nasceu de amizade, de uma passionalidade que só é paixão em um aspecto: A de fazer o coração, que agora é meu, feliz.
Eu aprendi, desde que soube que você existia dentro de mim, que amor não brota do nada. Ele cresce, assim, devagarinho, de um microscópico tamanho até o tempo em que tem de se materializar, porque não se pode mais guardar dentro de si mesmo: Acaba ficando insuportável, a gente tem de por para fora, dar à luz, segurar nos braços, cheirar, ouvir, sentir a textura, o gosto, ver... Eu ainda não tenho muita noção do que me espera quando você, de fato, chegar... Mas, eu imagino - e até sinto - que é maior do que qualquer outro sentimento que se possa imaginar.
Foi assim com o seu pai também. O amor por ele foi crescendo, crescendo, até o tempo em que eu tive de dizer: Amo você!
Sei, por exemplo, o que é amor pelos meus pais... Que me dão amor incondicional. Eu, entretanto, ainda não sei o que é incondicional. Estranho isto, né? Saber sem saber...
Seu pai me ensinou um amor calmo, paciente, persistente, gentil, delicado... Um amor que não dói. Um amor que constrói e entende. E eu espero que meu amor por você - que eu já sinto, sim, mas não é completo - seja uma combinação dos dois amores que eu aprendi, e que, por fim, eu saiba como é sentir um amor divino - cheio de graça e de misericórdia. Por que eu digo isto? Porque até agora eu só sei que sentem por mim. Não sei se, de fato, sinto isto por alguém. E acho que você será esta pessoa que terá todo o meu amor.
Eu tenho vontade tanta de lhe abraçar, minha filha!!! Estou louca para ver seu rostinho sem borrões. Sem escuridão.
De saber como são suas mãozinhas, seus pezinhos, sua boquinha... Contar todos os seus dedinhos para saber se eles estão cada um no seu lugar.
Quero tanto acariciar seu cabelinho e saber se, quando ele crescer, será como o meu "original de fábrica".
Seu pai queria olhinhos iguais aos meus, assim, vesguinhos... Eu queria que seus olhinhos sorrissem como os dele... Ficassem apertadinhos, só uns risquinhos, e que fossem transparentes e bondosos como os dele.
Mas, sabe, Charles Aznavour uma vez escreveu uma música chamada "Tous les visages de l'amour" e, eu sei, você é a face do amor que nascerá de mim.
Quero muito cantar para você, e embalar nos meus braços, chamar de "meu bebê", e defender você de tudo - ainda que seja impossível - e ter a certeza de que minha vida é sua. Antes era minha e de seu pai. Agora eu não existo mais. Só vocês dois.
Vou querer que você pise a grama com os pezinhos descalços. Vou querer que você reconheça o som do canto de cada pássaro, e que ame cachorro, gato e tudo quanto é bicho.
Quero que você suba numa árvore e não consiga mais descer dela... Prometo que vou ajudar você a descer. Prometo.
Banho de chuva... É preciso. Pisar em possa d'água. Andar descalça. Sentir o vento no rosto.
Precisa cair também. Para que nós a levantemos e, quando tiver condições, só nossa voz para ajudar a se erguer.
Sua vida aí dentro é boa... Pode acreditar. Por mais difícil que seja para mim - e está muuuuuuito difícil - ela é boa. Protegida. Segura por minha vida que eu daria pela sua.
Só que eu tenho de lhe dizer que o mundo aqui fora é tão lindo!!!
É terrível, muitas vezes, mas é maravilhoso!!! O mundo que Deus nos deu e preparou com tanto carinho e amor, é maravilhoso.
Há as flores, as rosas, os cheiros, as cores, as texturas... Há as pessoas que amamos... Como é bom saber que elas existem, filha. Como é bom... Amigos...
Há o conhecimento. A verdade. A vida!!! É isto que eu quero mostrar para você.
Pegar a sua mão até o dia em que você quiser ter as minhas mãos nas suas.
E, no dia em que você não quiser mais, pode ter certeza que estarei aqui até o dia em que você precisar novamente...
Ainda não consigo acreditar.
Quando você dorme aqui na minha barriga, eu fico duvidando que é verdade... Eu custo a atestar a veracidade de você aqui dentro...
Eu desejei muito, muito você. E você chegou assim, no tempo certo, em que tudo se encaixava dentro e fora de mim.
Agora, você está assim, como um convidado que faz uma loooooooooonga viagem e que nós esperamos a vida toda, à porta. Já está batendo.
Agora é só abrir.
Será bem vinda, filha. Pode ter certeza. Está tudo pronto para a sua chegada. E, mesmo que não estivesse, uma coisa é certa: Ao menos nossos braços você teria. Estou certa que isto lhe bastaria. Você não conhece nada além do meu calor, do toque da mamãe e do papai, e de nossas vozes que estão loucas para dizer o quanto amam você.
Pode chegar... Será muito bem recebida, assim, da mesma forma como eu recebi o amor que seu pai me ofertou. E que se materializou em você... Sofia.