terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vamos estar falando - ops! - falar de preconceito. Do linguístico.

Quem me conhece muito bem, sabe muito bem do que gosto e do que não gosto. E sabe de mim. Mas, só vale para os que, de fato me conhecem. E posso garantir uma coisa: posso contar nos dedos de uma mão apenas quem são esses.
Pois, essas mesmas pessoas também sabem que gosto muito de documentários e não assino uma TV a cabo que não tenha muitos canais do gênero, além de canais infantis que satisfaçam meus anseios quanto à educação da minha filha. 
Ainda, sou apaixonada pelos reality shows água com açúcar do Discovery Home and Health, além do Discovery World e outros. Assisto muito, aliás, o H & H... E há uma curiosidade, também sobre mim, que pouquíssimos sabem, incluindo aqueles que sabem muito de mim... A-do-ro programas que falam de casamentos: da organização, decoração, passando pela escolha dos vestidos (amooooooooooooo O Vestido Ideal)... E eis que recentemente o canal incorporou programas brasileiros em seu cardápio. E hoje, assistindo a um deles - do qual, por sinal, eu gosto muito - algo me chamou muito a atenção. E foi um detalhe que, para alguns passaria despercebido, ou não. 
Sou professora de Português e Espanhol. Mas, sou apaixonada pelo Português. Suas particularidades, sua beleza, sonoridade, sua arte, sua história...
Gosto de dar aulas sobre ele. Ensinar a escrever e entender o que se escreve. Tentar, ao menos, despertar paixões pela arte contida na literatura... Trazer sentido para as regras gramaticais - essa parte, nem não gosto muito.
No primeiro ano do Ensino Médio ensinamos os fundamentos do idioma. Como ele se formou, historicamente falando, como se difundiu, o que é língua, o que é linguagem, e a tal da VARIAÇÃO LINGUÍSTICA.
E, na toada da tal da variação, nasceu também o preconceito. Pasme você que está a ler esse modesto Blog em que desabafei e desabafo sobre os meus sentimentos em forma de palavras, que preconceito pode ter muitos nomes, inclusive pode viver no meio das humildes letrinhas que formam nosso vernáculo.
Eis que, depois de um gostoso soninho da tarde que eu amo, assisto a um daqueles programinhas so sweet que tanto adoro. Um brasileiro chamado "Negócio dos Sonhos", um reality que mostra o cotidiano de duas sócias de uma empresa chamada Marriage, de São Paulo, um negócio especializado em cerimonial de casamentos.
Depois de uma agradável visita à maior metrópole do país, eu concluí que são prestadores de serviço sem igual. Pessoas extremante competentes, sabem fazer qualquer coisa como se sempre houvera sabido fazê-lo.
E eu sempre admiro a competência extrema das sócias, de como elas se desdobram para que tudo saia perfeito para os noivos. Como cuidam dos mínimos detalhes de forma que a preocupação dos nubentes seja a mínima possível. E, lá na empresa delas, depois que a recepcionista as deixou, outra foi contratada. A moça em questão havia sido operadora de telemarketing... Preciso dizer mais? A coitadinha era dona de um gerundismo sem tamanho. Era o primeiro dia dela na Marriage. 
Um noivo liga, ela atende e, no meio de tantos "vamos estar cuidando", "vamos estar fazendo", etc, a ligação cai. Ela comunica o fato às sócias e, no final do dia, ao fazer o clássico balanço do primeiro dia da recepcionista, uma das sócias relembra a ela o episódio do noivo cuja ligação caiu. E ela disse o noivo tinha ligado no celular dela depois e que a ligação não havia caído, afinal, e disse que o rapaz não teve paciência porque a nova recepcionista estava falando como se fosse uma operadora de telemarketing. Ele disse à dona da empresa que desligou o telefone!
De fato... Ela usava muito o gerundismo. Mas era o que ela era! Então, pensei tanto no tal do preconceito linguístico.
A empresa em questão é especializada em clientes de alto padrão, cujas expectativas são tão altas quanto o dinheiro que investem. Nada mais justo. Mas, o que mais me chamou a atenção no episódio, não foi o fato de a criatura não gostar de gerundismo. Eu também não gosto. Aliás, detesto! O que me incomodou foi a grosseria de ter batido o telefone na cara da pessoa. Foi a indelicadeza de sequer dizer: "ok, querida, mais tarde eu ligo para obter maiores informações", ou de não ter pedido para falar com uma das sócias. Mas, foi a deslealdade de ligar depois no telefone pessoal da dona da empresa para falar mal da garota. 
O que ele estava pensando? Imagino que pensava que não tinha tempo, nem paciência para aquilo. 
Sabe, se eu fosse a dona, eu diria a ele que ele agiu muito mal. Que ela estava em seu primeiro dia, que estava aprendendo, que estava se dedicando - no gerúndio, sim, porque são atos que se fazem e se aperfeiçoam eternamente -, que superaria aquelas dificuldades. E diria também que ele poderia procurar outra empresa porque ali ela não gostava de lidar com riquinhos histéricos que não têm sequer paciência de tratar com civilidade uma pessoa que fala fora dos padrões DELE.
Essa é a MINHA opinião. Vai ver que é por isso que sou professora e não uma empresária de sucesso. Vai ver.
O preconceito linguístico me dói profundamente na alma. Eu sinto uma tremenda injustiça nesse ato. Em como alguém pode ser tão cruel com pessoas que não são iguais a ele. Que não tiveram as mesmas oportunidades. Garanto que a recepcionista estava dando o melhor de si para atender com o máximo de educação aquele noivo, e estava sendo o mais prestativa possível. 
Não suporto falta de gentileza, mesmo que disfarçada em uma educação impecável. Muitas vezes eu ouço por dia o tal do "nóis vai", o famoso "libera nóis, professora"... E tento ensinar com muita ternura, a variedade padrão. Tenho ensinar que eles terão mais portas abertas quando falam a variedade culta da língua. Que ela pode ser um instrumento de dominação, que ela pode trazer ganhos, mas também pode ser cruel e assassinar expectativas e sonhos.
Os detentores do conhecimento, aqueles que fazem e executam as leis escondem o idioma do povo, escondem, portanto, seus direitos, escondem deles as possibilidades de melhorar sua condição social e, portanto, econômica.
É, também, por causa dessa dominação que eles se escondem por trás de mordomias e privilégios e dizem o que devemos fazer ou não. É por causa disso, também, que fazem suas leis obscuras quer ferem os direitos dos mais humildes, mas eles não têm como se defender, porque simplesmente lhes é negado o acesso ao instrumento que faz as normas: o idioma. Mas, não aquele que se usa para simplesmente se comunicar, e sim aquele se se utiliza para discriminar.
Não estou, veja bem, criticando as donas da Marriage, muito pelo contrário. Achei louvável o fato de terem chamado a Jaque - esse era o apelido da menina - e terem conversado com ela e até terem brincado com o fato de que ela era uma sujeita cheia de gerundismos. Ela vai conseguir, eu sei. E eu acompanharei sua melhora. Sabe por que? Porque sei que ela se esforçará, que ela vigiará e que ela vai superar o que por anos foi inculcado em si. E o treinamento que ela recebeu foi esse. Que o "vou estar passando", "vou estar fazendo", "vamos estar ajudando" é educado e gentil. E isso, para mim, é o mais importante. Embora, com gentileza eu lhe ensinasse que não é o culto. Que os clientes esperam a mesma cultura que eles têm de que os servem.
Eu queria muito que aquele noivo se envergonhasse de ter desligado o telefone na cara da Jaque. Queria demais que ele tivesse ensinado a ela o que era correto. Sabe, eu já fiz isso. Eu pedi licença para uma atendente e perguntei a ela se poderia lhe ensinar algo. E ela disse que sim. E depois me agradeceu muito. Acredito que ela tenha sido sincera. Acredito mesmo.
E eu acredito que as pessoas rudes também podem ter cura. Embora isso seja bem mais difícil. 
Meus sinceros reconhecimentos à Marriage por sua dedicação e espero que elas tenham - mesmo no meio da sua falta de tempo - muita paciência com a Jaque. Ela merece, só porque se predispôs a aprender. E tomara que consiga. Estou torcendo por ela.

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