quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sobre Parquinhos e Menininhas


Minha mãe sempre adorou reformas. Sempre. Meu Deus! Acho que ela deveria ser mestre de obras... Nunca vi.
Jamais morei com meus pais em uma casa em que ela não fizesse uma reforma. Nunca!
Bom, na primeira grande reforma da minha existência, fomos passar uma temporada na casa de um tio meu, irmão de minha mãe. Lá perto - bem perto meeeeesmo - havia um complexo com quadras de esportes, com aparelhos de exercício e um parquinho que, na época me parecia enorme. Havia tudo de que gostava demais: Balanços, gangorras, barras para pendurar, aqueles blocos de barras de ferro... E muita areia!!!
Todo esse complexo ainda existe e fica perto do estádio de futebol da cidade onde fui criada, e agora conta ainda com um ginásio bem legal.
Um dia, naquele tempo, resolvi brincar. Para chegar àquele parquinho, eu tinha de subir um barranco e atravessar a tela de metal que estava cortada e por onde passavam todas as crianças ali da quadra. Nem sei que horas eram aquelas. Mas, eu sei que fazia muito sol mas o dia estava agradável.
Havia duas meninas ali também, que chegaram antes de mim. Uma maior, mais ou menos da minha idade, e outra menorzinha, irmã da primeira.
Fui brincar sozinha como fazia boa parte das vezes. E a menina maior mandou que eu saísse. Eu olhei para ela e pensei: Oras, esse parquinho não é dela, por que está me mandando ir embora?
Não falei nada, todavia. Continuei no balanço.
Ela nem falou uma segunda vez. Chegou perto de mim e imediatamente parei de balançar. Ela simplesmente me deu um tapa na cara. Sem aviso e sem motivo eu levei um tapa no meu rosto.
Levantei-me silenciosamente com uma vontade enorme de chorar, e atravessei a tela de metal.
Meu rosto pegava fogo de tanto que ardia. Eu fiquei meio sem fôlego com vontade de chorar tentando entender o motivo de aquilo haver acontecido.
Mas, no meio do barranco, eu pensei: Que desaforo! Eu nada fiz! Vou voltar.
Mesmo com medo eu voltei. Sentei novamente no balanço. Quando a garota veio ralhar comigo novamente, eu simplesmente disse: Esse parquinho não é seu! Nem meu. É de todo mundo que mora aqui, e eu não vou sair.
E ela berrou: Vai embora!
E eu disse, sem gritos que não sairia.
Como num passe de mágica, ela perguntou o meu nome. Eu respondi. E começamos a conversar. Simples assim.
Até hoje eu não entendo o que aconteceu. Não sei se por causa da minha aparente calma ela resolveu que eu não era inimiga dela e começou a brincar comigo e sua irmãzinha.
Pode ser também que ela tenha achado interessante dar um tapa na cara de alguém, assim como via em novela ou filme...
Mas é engraçado isso, porque eu sempre atraí a antipatia de algumas pessoas. Gratuitamente. É o que eu acho. Vai ver que não é.
Sou o tipo de pessoa que muita gente acha arrogante. Daquelas insuportáveis que andam por aí.
Acho, muitas vezes, que não sou desse mundo que, de certa forma, eu não em encaixo aqui.
Gosto de coisas que pouca gente gosta. Se bem que agora, até que dá. Estou tomando idade para isto.
Ando sempre ereta, gosto de roupas clássicas, uso leques, óculos escuros grandes, ando de chapéu, de guarda-chuvas fazendo as vezes de sombrinha para me proteger do sol, adoro ler, ouvir músicas que muitos consideram antigas, demodês, etc... Cozinho, lavo, passo, bordo, tive aulas de piano, de canto, sempre me interessei por regras de civilidade, por moda, artes...
Falo baixinho, não gosto de me alterar. Sou romântica...
Sei lá! Eu me acho bastante normal para mim... Não gostaria de ser outra pessoa, não!!! Hehehehe...
Mas, sem querer me fazer de vítima, eu fui bastante hostilizada algumas vezes na minha vida.
Esse episódio do tapa foi uma dessas vezes.
E, ao me pegar pensando neste assunto, eu me lembrei de algo que um pastor a quem amo demais disse certa vez sobre Cristo: Que não o aceitamos, recebemos.
Não quero - e não vou - fazer deste Blog um espaço religioso. Nem adianta que não vou. Mas, mencionei isto porque eu sempre pensei que a vida é mais ou menos assim também.
Embora pensemos que temos o controle dela, é um engano pensar assim.
Guimarães Rosa, em seu magnífico Grande Sertão: Veredas, disse: Viver, não é? É muito perigoso. Porque ainda não se sabe...
Eu tenho a impressão de que a vida, além de ser uma estrada que se desfaz atrás de nós conforme vamos caminhando, é cheia de milhares de curvas. Sabemos que elas estão lá na nossa frente. E que, provavelmente a paisagem é mais ou menos como a que estamos vendo agora. Mas, não sabemos, de fato, o que encontraremos lá no meio das curvas.
Mas, vamos para lá do mesmo jeito. Encontrei nessa curva de um ano que passou, muitas surpresas. Como aquela menina.
Diante da aparente inocência, havia o desconhecido. Um tapa me esperava.
Recebo. Mesmo sem aceitar. Porque não posso deixar de viver.
O fato de haver cometido erros, de haver enfrentado dificuldades, animosidades, preconceitos até mesmo de quem eu esperava mais misericórdia, me fez a alma arder. E me fez chorar. Mas, estou de volta ao parquinho. Tentando apenas me balançar um pouquinho.
O fato de algumas pessoas pensarem o que quer que seja de mim, não me faz ser diferente do que sou, afinal. Tampouco faz com que eu deixe de sentir ou pensar o que quer que seja.
Há um dos comentários no post passado em que um Anônimo(a) disse que eu e o meu ex-Bofe combinávamos porque eu era pretensiosa como ele.
Mas, sabe, não o acho pretensioso, e eu tampouco tenho qualquer pretensão na minha vida a não ser vivê-la.
Não tenho a pretensão de ser uma dançarina, mas AMO dançar.
Não tenho a pretensão de ser uma expert em moda, mas sou louca por roupas, sapatos e afins.
Não tenho a pretensão de pertencer à Academia Brasileira de Letras, mas escrever é uma de minhas paixões.
Não tenho a pretensão de ser uma especialista em música, mas sou apaixonada pelos sons do mundo...
Depois daquele tapa eu balancei deliciosamente naquele balanço tão simplezinho... De pés descalços na areia, olhos nos olhos com aquela menina.
Depois daquele dia, nunca mais a vi. Mas, ela deixou uma marca em mim: Não deixarei que um tapa me faça desistir da diversão.
Caio partida em cacos pelo chão. Só que lembro-me que a vida não é só minha. Assim como não é de UM alguém. Ela simplesmente é. E acontece para que a recebamos, ainda que não aceitemos os rumos que toma.
A vida é linda!!! Há milhares de balanços em cada olhar.
Os amigos, a família, os amores.
Além deles há um céu azul, há ipês, sibipirunas, paineiras, quaresmeiras, margaridas (e Rosas!!!), estrelas, lua cheia, minguante, nova, crescente. Há Vênus brilhando linda... Há noites quentes, frias. Eu tenho o meu Lago Paranoá. Minhas pérolas. Meus bichos. Meus amigos. Minha dança. Tenho meu trabalho. Saúde... Dificuldades enormes para transpor ao longo do caminho... No meio do parquinho.

14 comentários:

Adri Polo disse...

Minha querida Gabi,como me emocionei com esse texto lindo!!! Adorei quando falou que "um tapa não a fará desistir da diversão".Isso mesmo minha querida.Ninguém pode ter um poder ruim de transformação em nossa vida.Eu só permito que coisas boas transformem um comportamento meu.Eu te admiro.E quem acha que vc é pretenciosa é por que é desatento demais.Não prestou atenção em seu coração.Um beijo e que felicidade o seu "coments" no blog da Elisa sobre mim...Quero te ver sempre feliz pois tb sou sua fã.

Gabrielle Avelar disse...

Beijo, Adri... Obrigadíssima pelo carinho...
Tá vendo como o Félix acaba perdendo para nós?
Acho que ele é que deveria dizer: Ei, quero uma bolsa como a alma de vocês!!!
Beijo enorme!!!

Anônimo disse...

Eu não disse que seu bofe é pretensioso. Vocë se entregou né, disse que não tava falando dele no texto, mas tava sim. Eu não falei dele, falei do sapato,pretensioso, porque quer ser chique mas não passa de uma versão barata.

Gabrielle Avelar disse...

Aaaaaaaaahhhhhh!!! Hehehehe!!!
Desculpe a minha lentidão de pensamento...
Bom, você falando eu entendi. Mas, hein... Você por um acaso falava do meu sapato lindo da foto? Poxa... Amo esses sapatos... Mas, tudo bem, gosto é gosto.
E... Não me entreguei. Você é quem sempre fala nele. Eu não estava mesmo falando da Pessoa no texto.
Meu sapatinho não é uma versão barata... Ele não quer ser um Chanel... Quer apenas ser um sapato bicolor, alto, estilo boneca, como quase todos os meus calçados.
E, é isso que você pensa de mim? Que quero ser chique mas não sou?
Aliás, foi você quem me fez aquela pergunta retórica?: "Você pensa mesmo que é refinada, não é?"
Como eu disse, a única pretensão que tenho na vida é viver e ser feliz, de preferencia com alegria na maior parte do tempo. Acho que sou um pouquinho peruazinha. Mas não muito. O importante é que sou feliz com minhas roupas de grife... De brechó. Com meus sapatos... Confortáveis. Com minhas bijuterias... Um absurdo de caras.
Só quero viver minha vidinha... Bem quietinha fazendo as coisas que gosto.
Assim... Bem passarim.
Beijo!

Katinha disse...

Aqui eu de novo pra elogiar a maneira como você usa para se expressar e confesso que em algumas horas fica até bastante acima da minha capacidade de interpretação, mas já sei que escrever é uma forma de ficar bem, se libertar e intão se isso for alcançado já estou feliz. " Se deseja o arco-íris, deves suportar a chuva" - Dolly Parton. Vi esta frase e gostei muito e ai fui lembrando das situações que você compartilha aqui e queria que guardasse esta frase, talvez seja mais uma ajudinha naqueles momentos frius e difíceis de chuvas ou tempestades. Bjus no coração.

Anônimo disse...

Vc se engana, eu só falei dosapato e do mal gosto, nunca falei do seu ex, não sei nem quem é...

Gabrielle Avelar disse...

Katinha... Obrigada, fofa!!!
Beijo enorme para você, com o meu desejo de um fim de semana maravilhoso!!!
Anônimo...
Então tá. Deve ter sido outro alguém...
Bom, gosto é gosto... Hehehehe!!!
Beijo!

Júnior disse...

Reformar...
Também conheço bem esse verbo. Já passei por algumas. Só que lá em casa quem gosta não é minha mãe, mas sim meu pai, que além de um bom advogado também é um bom pedreiro...rsrs.
Ha, também já passei temporada na casa de tio por causa da reforma...affffffff...
Enfim, essa última está com data marcada para terminar, já já volto para minha casa!
Beijocas, meu anjo.

Gabrielle Avelar disse...

É... As tais reformas...
Embora eu as odeie, eu prefiro desejar que esta não seja a última reforma pela qual eu passarei.
Estou "desterrada", não por causa de uma reforma física.
É que neste um ano, eu já passei por muuuuuuuitas reformas. E esta que está sofrendo a casa é, sem dúvida, a menos pior delas.
As outras foram difíceis. Mas, passei por todas elas. Ainda há o que fazer.
Só que espero que o Mestre agora faça menos quebradeira. Ou não!
Beijo, Júnior!

Adri Polo disse...

Vc viu que a Elisa falou que sonha com o dia de nos encontrarmos ?? Eu disse a ela que seria maravilhoso se nos encontrassemos em Búzios,eu,vc,ela,a Erika...Vc teria que estar ,pois seremos as únicas sem a criançada...Beijos amiga!Passe no meu blog,pois como ele esta fazendo niver deixei um recadiho para as queridas amigas que me lêem.E claro,vc tá lá!

Arianne disse...

Há aproximadamente um mês um amigo meu me mandou esse blog. No dia eu não estava muito bem, mas a curiosidade foi grande e resolvi olhar. Incrível como as palavras certas fazem qualquer pessoa triste sorrir como criança inocente! obrigada por ecrever aqui, você sempre tem as palavras certas. boa noite =D

Gabrielle Avelar disse...

Adri, é sempre um enorme prazer "bater ponto" a cada atualização sua... Porque seus textos são tão maravilhosos... Cheios de vida, assim, como você. Claro que acho uma excelente idéia nos encontrarmos. Ficarei extremamente honrada em conhecer vocês que já fazem parte de minha vidinha, tão pequena, fazendo com que ela seja cada dia maior!
Beijo enorme, parabéns pelo aniversário do "Demais Para a Minha Cabeça"... Porque tudo o que está lá cabe na minha...
Arianne... Como agradecer tão gentis palavras?
Só posso dizer que sou muito grata a você por ler, porque sei que muitas vezes nos perdemos afogados no tempo que nos engole. E, mais do que grata por você se dar o trabalho de ler, sou mais ainda por você gostar!!!
Beijo enorme, com as minhas boas-vindas a meu Universo!!!
Será uma honra contar com sua presença constante.

Elisa A. disse...

Amada, querida amiga...
Que bom que levamos tapas na cara. Que bom que conseguimos nos enxergar como pessoas, mulheres, que conseguem se reerguer após um belo tapa.
E que maravilha que é viver essa vidinha com reformas, mesmo que precisemos nos acomodar em algum cantinho, amigo, receptivo, querido. Um cantinho que não é nosso, mas que nos recebe, assim como aconteceu com vcs.
Um beijo, amada. Fique com o Senhor.

Gabrielle Avelar disse...

Linda Elisa... Você, sempre sábia... e Leve!
Obrigada pela força de sempre. Obrigada pela amizade tão sincera. Obrigada pela presença. Obrigada pelo amor em Cristo!
Beijo enorme!