sábado, 30 de maio de 2015

Normal... Tudo normal.

É... sou uma mulher bem normal.
Pari. E isso me faz mais normal ainda. Meu corpo não me orgulha mais. E nada mais normal que isso. Hoje, aqui do alto dos meus 35 anos - e lá se vão alguns anos desde a primeira publicação - muita coisa mudou. 
O tempo foi a primeira coisa que sumiu de mim. E todas as minhas emoções, que antes eu resolvia escrevendo, agora eu tenho de resolver de qualquer jeito dentro de mim e no silêncio lacrimoso de noites mal dormidas e pensativas...
Sentindo uma enorme falta dos espaços que as palavras preenchem em mim. Uma forma de me ver por dentro externada aqui, em formas das letras e de seus sons, materializando no verbalismo puro e simples o universo verbal a que tenho tido contato apenas nas aulas de português, em sua gramática normativa, extenuante e cotidiana que me sufoca, muitas vezes. Para uma professora do idioma - normal. Muito normal.
E muito amor surgiu. Muito. Minha menina cresce, e junto com cada célula sua que se multiplica o amor cresce em igual proporção. A textura da pele dela é decorada pelo meu cérebro milímetro a milímetro, o som da sua voz, cada um dos cachos de seus cabelos, os grandes olhos de jabuticaba, o cheirinho que ainda é de bebê, quase já de uma criança, aquele cheirinho doce e acre ao mesmo tempo... A forma de seus pezinhos, o toque de suas pequenas mãos... Tudo nela me inspira louvor e agradecimento a Deus. E amor. Muuuuuuuuuuuuuito amor. Sou mãe, então... Normal!
Mas, o medo apareceu. Medo de morrer. Medo de acontecer algo comigo ou com o pai dela e minha pequena ficar desamparada. Medo de perdê-la, ou que ela perca o melhor da vida. Medo - que tento controlar - de algumas brincadeiras, das corridas dentro e fora de casa, e a noção perfeita da fragilidade da vida. Toda mãe é uma apavorada. Normal.
Engordei. Fiquei mais cansada. Os cabelos estão embranquecendo, e tudo - tudo mesmo - está a favor da gravidade... Muito eufemismo pra falar das pelancas. Sem falar na celulite. Nas dores nos pés, na coluna, no pescoço, nos braços, nas pernas... Tudo dói. Até o couro cabeludo, muitas vezes. 
Os seios... Ah, os seios... Que um dia amamentaram minha filha, agora pesam. Pesam muito. E, aos meus olhos, envelhecem, dão ar de matrona - quase a mãe natureza - incomodam. Não é qualquer roupa que posso vestir. Tudo tem de servir e ficar bom nos seios para eu não ficar vulgar. 
Não posso reclamar... Não gosto de malhar e descobri que gosto muito de comer... Uma duplinha bombástica!!! Quando não se nasce com boa genética, bau-bau... Engorda-se mesmo. Normal... Aprendi que algumas boas coisas da vida são assim... Engordam, mas são boas.
A grana anda curta. Cada vez mais curta. A vida de adulto é muito difícil... E, além do mais, a economia está estranha... Vemos índices de inflação desproporcionais ao preço das coisas nos supermercados. A esperança de comprar um imóvel morreu no coração de muitos brasileiros - pelo menos por algum tempo. Normal... Quase normal, mas eu não entrarei no mérito da corrupção porque aí o assunto renderia. Normal também. Sou brasileira e, como tal, sei de política como ninguém. E - quase - acredito que moro no pior país do mundo.
Meu marido - como quase todos os homens - está ficando mais bonito. E mais cheiroso. E mais interessante. Seus cabelos grisalhos são charmosíssimos! E gosto cada dia mais dos momentos em que estamos juntos. Ou apenas perto. Gosto das nossas conversas e do jeito que ele me escuta com tanta paciência. A cada dia eu o amo e admiro mais. Mais ainda sabendo que ele me atura, nessa loucura que é a minha vida. Normal... Ou pelo menos deveria ser, né??? Que o amor seja cultivado e regado todos os dias.
Meu dia-a-dia é  como de muitas mães e mulheres... Trabalho, casa, escola de filho, busca filho e, no meu caso, o trabalho de casa - do trabalho -: Corrigir provas, redações, passar notas, conteúdos, preparar aulas... Normal, normal. Tudo bem normal.
Mas, sabe, a vontade de sentir, a vontade de saber, a vontade de conhecer cada vez mais é algo extraordinário. E a vontade de querer mais de tudo o que eu acabo de ver, me faz saber que o normal talvez seja o melhor da vida. Porque a verdade é que aquilo que tantos chamam de rotina - e que até apregoam por aí que destrói relacionamentos - é uma benção de Deus.
Nesses dias normais, nessas atitudes corriqueiras eu vejo a mão de Deus, eu vejo muito amor, e vejo toda a gratidão. E dou mesmo graça por tudo, mesmo as dificuldades que me fazem aprender tanto. Nos amigos tão preciosos, as pessoas que, mesmo depois de muito tempo sem se ver e sem se falar, abraçam e riem como se ontem mesmo tivessem lhe visto. Isso é tão bom e extraordinário. Isso é tão maravilhoso... Cada dia de sol, cada dia de chuva ou cada noite estrelada ou entardecer de rosas e lilases é algo sem par... E digno de ser aproveitado.
O corpo "estragado" abrigou um bebê, o metabolismo ficou mais lento, mas eu não voltaria aos vinte ou vinte e poucos anos. Cada dia da minha vida é um presente e cada pessoa que faz parte desses é igualmente amado.
Isso tudo é normal... E o normal é extraordinário. Extraordinariamente normal...

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