domingo, 3 de fevereiro de 2013

Assopra!

Dia desses eu assisti a parte de um documentário do Dicovery Home & Health a respeito da infância hoje em dia. Mostraram ruas nos anos 70 e 80 e as mesmas ruas nos dias atuais. Naquelas décadas eram cheias de crianças brincando, correndo, sorrindo, gritando e, atualmente, vazias. Totalmente vazias de crianças.
Sabe, não sei se concordo com as diversas opiniões e pesquisas mostradas por vários especialistas que versavam sobre o fato de as crianças não serem mais livres.
Lembrei, claro, da minha infância. Sou uma sobrevivente, segundo a mentalidade atual. Passávamos o dia na rua. Lembro que brincava de pique pega, pique esconde, pique bandeira - também conhecido por salve bandeira ou bandeirinha que, na verdade eram um galho de árvore que achávamos nem sei como - de pular corda, de elástico - essa uma brincadeira quase exclusivamente feminina, sem contar o taaaaaaaaaaanto que brincávamos nas casas de nossos amigos ou primos de casinha, de nave espacial, de super heróis e heroínas, subíamos em árvores imensas e chupávamos manga no pé, amora, pegávamos flores, fazíamos comidinhas de areia.
-"Boca de forno!"
-"Fooooooooooorno!"
-"Jacarndááááá!"
-"Dáááááááááááá´!
-"Tudo o que mandar"?
-"Fazeremos"!
-"E se não fizer"?
-"Apanharemos"!
Era assim mesmo... Tudo falado errado. Nem por isso ficamos menos cultos. Tínhamos, não obstante, os momentos de aula, de fazer dever de casa, nossos trabalhos feitos com livros e mais livros - Barsa e Mirador, lembram? - de fazer nossos cursos de inglês, piano, ballet, caratê e escambau a quatro. E brincávamos muito, até a hora do jantar, quando nossos pais lembravam que tínhamos de comer e depois dormir para ir à aula.
Cantávamos e dançávamos cantigas de roda do tempo dos escravos. "Atirei o pau no gato"... Nunca via amiguinho meu nenhum maltratar animais por causa dessa música. Gostávamos mesmo era da farra, do ritmo, do abaixar repentinamente para gritar o famoso "Mi-aaaaaaaaaaau!"
Hoje alguns pedagogos elevaram o "Boi da Cara Preta" a pesadelo da coletividade brasileira. Só me lembro de o ritmo me fazer dormir. Nada mais. Nada ficou no meu subconsciente de ruim, de medo de um boi negro. Ele nunca, nunca mesmo me visitou em meus pesadelos.
As historinhas da Coleção Disquinho - lembram trintões e quarentões, dos disquinhos coloridinhos com as historinhas do Macaco e a Velha, da Festa no Céu, Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos etc? - já vi algumas pessoas as chamarem de preconceituosas...
Gente, cadê a inocência? Onde foram parar apenas as boas intenções?
Uma das especialistas do documentário do qual eu falei perguntava: "Como poderemos construir uma sociedade de confiança se não confiamos em nossos filhos?"
E eu pensei a respeito e concluí que não é uma questão de confiança no caráter dos filhos que faz com que os pais de hoje - incluindo eu - não deixarem os filhos irem para a rua e brincar. Eu amo a minha filha e todos os pais amam seus filhos, não é possível que um pai pense: "Se eu deixar meu filho sozinho ele vai fazer besteira." Claro que não!
Acho que o tal medo sobre o qual falei no meu último post é o que motiva essas reações defensivas nos pais. Vamos analisar os fatos: Até a década de 80 ter uma televisão era caro. Bem caro. Eram aquelas TVs de botão e quase nenhum aparelho tinha sequer controle remoto. Internet então, era coisa apenas para as grandes companhias, instituições de pesquisa de grau elevado e ainda engatinhava em suas conexões mundiais. Celular? Que maravilha seria essa, meu Deus! As linhas telefônicas eram caríssimas, tão caras que, quando a telefonia foi privatizada no Brasil rendeu ações e um bom dinheiro às famílias... Ainda nos correspondíamos por cartas. E era maravilhosa a sensação de receber uma, tal era a espera da ida da carta e da vinda da resposta... Cartões postais e seus carimbos e selos... 
A comunicação era diferente, isso é fato. Outro cientista do tal documentário afirmou que, na verdade, o mundo está estatísticamente mais seguro para as crianças, por um sem número de motivos, entre eles o maior acesso à informação, à recursos de saúde, novos medicamentos, eficiência investigativa das polícias, etc.
O que eu penso, após analisar tudo isso é que justamente o novo mundo conectado é o que nos atrapalha. As notícias se espalham e, em questão de segundos, todos sabem de tudo. É espantoso! E os telejornais do Brasil que antes falavam de inflação galopante, hoje falam apenas de violência, já que a economia está razoavelmente controlada e estável. Se uma criança cai num determinado brinquedo de um parquinho, já é motivo para que as autoridades retirem aquele item de todos os parquinhos do universo. Eu me lembro de brincar e me virar de cabeça para baixo, de me pendurar e me equilibrar pelas barras finíssimas dos brinquedos e nunca me machucar. 
Claro, ganhava uns arranhões, um hematomas, mas sobrevivia e queria sempre mais. É difícil um pai e uma mãe não ficarem apavorados ao verem seus filhos em lugares que os "especialistas" reputam como perigoso para seu filho. Como é que eu vou deixar que o ser que eu mais amo e me foi entregue para que eu cuide se meta em lugares que podem ser perigosos para ele? Como é que vamos deixar nossos filhos caírem e quebrarem seus pescocinhos lindos?
Não é, portanto, falta de confiança nos filhos, mas sim a falta de confiança no mundo em que nossos filhos vivem: Bala perdida, sequestro relâmpago, motoristas bêbados, drogas em cada esquina, pedofilia, mulheres grávidas sendo mortas por nada, plásticos que, aquecidos, causam câncer, radiação solar que mata, frangos que aceleram a puberdade, sexualidade antecipada, violência gratuita, jogos alienantes, loucos atiradores... Que mundo mais louco, não?
Ainda não consegui decidir, portanto, qual é o problema de nossa sociedade atual, se é o mundo que está realmente diferente ou se o excesso de informação que nos deixa tão apavorados a ponto de criamos nosso filhos em casulos bem fechados e sob nosso olhar constante por onde quer que eles estejam - a internet também criou essa "maravilhosa" ferramenta das câmeras que se podem acessar de qualquer lugar para ver se seu filhote está são e salvo.
Só sei de uma coisa: Lamento o fato de que eu não terei como deixar minha filha brincar como eu... Poxa, não haverá outras crianças na rua para que ela possa brincar... No que depender de mim, mesmo com tanto medo de tudo o que nos cerca atualmente e com uma ferida de mãe aberta no meu coração, eu quero que ela cante cantigas de roda comigo. Que ponha a mão na areia, na terra, que pise a grama descalça, que ande descalça no chão frio de casa. Vou deixá-la feliz muitas vezes ao sentir o vento no rostinho quando andarmos de bicicleta. Quero andar com ela pela rua e deixar que ela corra - não muito, claro, que é para não esborrachar em tato asfalto. No que depender de mim eu quero que minha filha seja feliz. Mesmo que seja desse jeito tão diferente, que eu não consigo reconhecer como genuíno - mas deve ser. Afinal, o ser humano tem a incrível capacidade de se adaptar a qualquer adversidade, a qualquer diferença. Com a infância atual não deverá ser diferente.
Mas, vamos combinar: Como era bom brincar na rua e ralar o joelho de vez em quando... E eu posso dizer com isso: Sobrevivi ao Merthiolate que ardia!!! Assopra, assopra!!! Hehehehehe!!!

2 comentários:

Dom Rafa disse...

Me identifiquei.
...Mas nada vai me convencer de que ficar jogando angry birds ou algum jogo online com os amigos me faria mais feliz na infância que acampar no jardim de casa, caçar vaga-lumes, colecionar insetos, incendiar a cerca do vizinho, meter a faca no dedo e NÃO botar merthiolate (lavei com água da piscina mesmo), e me sentir um ninja ao desafiar a gravidade, subindo as paredes do corredor de casa (de cabeça pra baixo para deixar a avó preocupada)... Eu e meus amigos não conhecíamos a palavra "consequência". Éramos apenas as "causas". Mas valia a pena!
=)
Beijos, Gabi!

Gabrielle Avelar disse...

Rafa, nada, absolutamente nada pode substituir a experiência verdadeira dos sentidos. Amar a vida também significa amar os outros. Amar os outros significa olhar em seus olhos, brigar, rir junto... E, em nossa infância foi assim! Como era bom, né? Também, como disse no texto, não reputo a experiência da infância atual como genuína. Mas, mesmo sem me convencer de que a vida virtual não é vida, é o que eles, infelizmente tem hoje. Vou tentar, juro que vou tentar fazer minha filhinha experimentar coisas diferentes. Tomara que eu consiga, né?
Ai... Catar vaga lumes... Rafa, há tanta coisa que nem contei nesse texto e que eu fiz... Poxa! Quantas saudades!
Beijos e obrigada pela atenção de sempre e sempre!